Chutes, pontapés e “vai Planeta!”

Há algum tempo o mundo acompanha o desastre ecológico ocorrido no Golfo do México provocado pelo vazamento de petróleo da companhia britânica British Petroleum (BP) sem a observação dos avanços de políticas de despoluição do Oceano Pacífico. O vazamento de óleo no Golfo do México, justificado por um acidente entre uma plataforma, momento de crise econômica e preocupação ambiental, traz conseqüências graves a sociedade norte-americana e convida, dos resquícios do american life way,  a uma nova reflexão do desenvolvimento social sustentável.

No fato observado, considera-se o maior desastre ambiental da história dos Estados Unidos, com a liberação de 95 mil barris de petróleo diários expelidos ao mar desde maio de 2010. Como dano ambiental a catástrofe é irreparável, desestabiliza biomas, desregula as correntes marítimas, expande-se para outras regiões, ameaça a vida de espécies não humanas e o equilíbrio biológico da região. A poluição no Golfo do México é uma questão de relevância imediata se considerar que a destruição de um bioma equilibrado tem como conseqüência a ocorrência de um encadeamento de desastres naturais.

 A vida terrestre veio do mar, as algas marinhas são responsáveis pela maior parte de liberação de oxigênio na atmosfera da Terra. Quando o planeta estava em fase de formação, foram as algas que equilibraram os gases tóxicos e derivados de carbono e enxofre expelidos pelas tensões sísmicas tornando o ar respirável. O aquecimento global que na última década transformou-se em pauta internacional devido a política de produção capitalistas e da perspectiva irresponsável da humanidade ao se colocar como parte externa da natureza, acreditando que o meio-ambiente, em uma visão quase religiosa, é um meio ilimitado a ser explorado pelo que se caracterizou de progresso social, é evidenciado pelo aceleramento constante no aumento das temperaturas do planeta, derivada do efeito estufa pela emissão de gases como o metano e o dióxido de carbono. O aumento das temperaturas seria responsável pelo derretimento das calotas polares, aumento do nível dos oceanos, deserfiticação das florestas tropicais e desequilíbrios ambientais.

É importante ter em mente que o aquecimento global é um movimento cíclico e comum da terra. A vida dos planetas é repartidas em intervalos de períodos glaciais e inter-glaciais; a espécie humana e o modo de vida como se conhece, é uma adaptação do período inter-glacial. Assim como o efeito estufa é outro sistema natural do planeta que permite a manutenção de temperaturas habitáveis na biosfera, o aquecimento global também é irremediável; a questão crítica não é a capacidade que a humanidade têm de combater esse processo, mas sim a imensa força que a mesma têm de acelerar o processo, que ultrapassa duração milhões de anos para sua manifestação, a ponto de colocar em risco milhares de espécie e sua própria existência.

Falar de aquecimento global é importante pela relação intrínseca do acidente na Lousiana com as determinações de sua ocorrência e nas políticas externas em relação ao objeto. Em caminho inverso, postas as conseqüências, propõem-se nesse momento primeiro investigar as causas macro e gerais do acidente seguido da relevância e nas diretrizes políticas resultantes.

Embora a discussão permeie a questão ambiental, um dos efeitos mais desastrosos do vazamento de óleo deu-se para a sociedade americana que vive na costa oeste dos EUA dependentes da indústria pesqueira.  A impossibilidade de trabalhar e a instabilidade econômica, resultado de seguidas crises em 2008 e 2010, alerta para a impossibilidade de uma economia não sustentável  e da dependência do homem em relação a natureza. 

É lógico que a responsabilidade pelos danos ocasionados deve ser assumida pela BP, mas o questionamento do american life way, não exime de culpa as bases produtivas expressas na terceira fase do capitalismo. A sociedade de consumo, personificada no bem estar social norte-americano, é sim responsável pelo excedente produtivo e pelos desastres ambientais do planeta. Oras, não foram as grandes montadoras de automóveis decisivas na solidificação do espírito capitalista e de uma nova etapa na Revolução Industrial? Não será o Fordismo responsável pela maquinização individual e social na forma de produção? Ou então não será culpa da indústria que reivindicou o petróleo como matriz energética mundial? As invasões no Iraque nas duas Guerras do Golfo arquitetadas pela família Bush não tinham essas motivações? Os carros não são encarados como produtos culturais máximos do consumismo da realização do status quo e colocação social? Sim, todas as repostas estão inseridas no modo de vida norte-americano sustentado pelo consumo desenfreado e alienação dos meios de produção.

O questionamento expresso pela indústria automobilística não se relaciona a uma possível perseguição pessoal, mas sim na consideração dessa, acompanhada das industrias bélica e de entretenimento, como a base da economia norte americana e a relação conjugal que esses três setores matém na manutenção do american life way, uma vez que os tanques são inseridos no contexto dos interesses econômicos da potência, o que legitima, em um darwinismo social, a invasão e usurpação de qualquer país; Hollywood contribui para a esteriotipação dos alvos e alienação social, e os motores inserem uma valorização da sociedade pelo ego. Em outras palavras a indústria bélica furta o Iraque de sua energia, o ouro negro; os filmes sintetizam os arquétipos humanos contrários ao Tio Sam em terroristas, e os carros grandes e luxuosos pela lógica dos bons valores sociais, expressam uma condição ilusória de que a vida da sociedade norte-americana é estável e bem sucedida.

Ignorando as raízes históricas de degradação ambiental e a incapacidade de auto-análise, era de se esperar que o governo norte-americano exigisse esclarecimentos sobre o desastre ocorrido em seu litoral. O presidente Barack Obama, já desprovido da imagem messiânica construída através de sua personalidade, declarou em público que não irá aceitar mais falhas e vai punir com rigidez os responsáveis. Em um momento cômico sugeriu dar um pé na bunda dos mesmos. O questionamento acerca as afirmações do presidente poderiam apontar para uma mudança nas perspectivas política dos Estados Unidos em relação ao meio ambiente, mas soa aos cansados ouvidos do mundo como apenas um recurso retórico e diplomático em satisfação a população norte-americana.

É justa a desconfiança sobre a preocupação dos Estados Unidos com o meio-ambiente. É hipócrita reinvindicars políticas frente à mídia internacional quando se é, segundo a Tides Foundation, o país com maior índice de emissão de carbono em todas as nações do mundo; um país que possui 5% da população mundial e consome 30% dos recursos naturais mundiais; um país em que se negou a assinar o Protocolo de Kyoto, iniciativa para redução de emissão de gases estufas, justificando-se no menor crescimento do PIB; a nação que colocou empecilhos nas Conferências  do Clima no Rio de Janeiro em 1992 e em Copenhagen em 2010, o que impediu políticas eficiente no combate a alteração do clima;  uma terra que só restam 4% das florestas originais e que 40% dos reservatórios de água doce são impróprios para o consumo, o que legitima a exploração de recursos naturais nos mercados emergentes; uma economia compulsiva, descartável e esquizofrênica que não suporta os limites de seu lixo industrial e padrões de consumo. Obama não é o responsável por tudo, mas de forma impessoal: quem lhe dá um chute na bunda?

De chutes e pontapés chega-se a conclusão de que o episódio da BP marcará apenas mais uma página dos desastres ecológicos que tendem a se intensificar durante os anos com o crescimento econômico, impunidade e despreocupação com políticas efetivas. A BP pagará uma multa, a sociedade americana vai continuar a apagar o vazio de suas vidas no consumo e os Estados Unidos continuarão a serem o maior vilão ambiental de todos os tempos.  Atolados nesse mar de lama e óleo que a incapacidade dos governantes resultou, ficarão os pés das gerações futuras,  esperando pela união de seus poderes o próximo “Capitão Planeta”.

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