Amores de inverno, romances de verão
03/07/2010 Deixe um comentário
O inverno mal acaba de chegar e os ventos passados de uma guerra adormecida parecem incitar faíscas nas memórias gélidas de duas potências aquecendo os bastidores da política internacional. A relação Casa Branca e Kremlin, sedes dos governos norte-americano e russo respectivamente, parece abalada essa semana com a suposta acusação de espionagem, relembrando os tempos de Guerra Fria.
A Guerra Fria é marcada pelo pós-guerra (Segunda Guerra Mundial) onde, Estados Unidos e URSS polarizaram o mundo em uma disputa ideológica marcada pelo temor da guerra nuclear, trauma dos ataques destinados ao Japão. Nesse período a competição ideológica estendia-se para além da dominação político-econômica, como se expressava na disputa tecnológica e cultural. Eram comuns os processos de perseguições políticas e espionagens entre os rivais.
Passado as ditaduras na America Latina, as guerras na Ásia (Vietnam e Afeganistão) e a tirania do arquipélago Gulag, a falência do capitalismo de Estado promovido pela URSS configurou soberania e potência absoluta para o liberalismo econômico americano reinstituir o neo-colonialismo. Desde então, a prepotência militar norte-americana associada ao consentimento político da força exibiu seu poder econômico, inflando aos olhos do mundo o american life way, sob o esquecimento da Rússia que como estado independente, desmoralizava-se declarando moratória através das vodcas do presidente Yeltsin.
À pegar carona na contextualização histórica, hoje percebe-se uma estabilidade russa, após ascensão política de Vladimir Putin que governou o país até 2007, inserida em um cenário econômico intermediário, encorpando a já conhecida personagem política, respeitada no Conselho de Segurança da ONU exclusivamente pelo poderio militar. Do outro lado, observa-se um princípio de recessão econômica mascarada na força politica e na figura do primeiro presidente negro norte-americano, Barack Obama.
A notícia que a policia federal (FBI) prendeu onze pessoas suspeitas de espionagem para o governo de Kremlin surpreendeu o mundo, uma vez que, os países diplomaticamente haviam se aproximando; fato consumado na “reunião dos hambúrgueres”, onde os presidentes Obama e Medvedev apreciaram entre lanches e batatas fritas inclusive uma relação política informal e cordial. Não seria de se estranhar que na acusação do FBI resgata-se a memória das décadas anteriores e dos conflitos históricos entre Washington e Moscou, na ressalva que a comparação entre os momentos só equivale aos métodos; não há pertinência de uma comparação a Guerra Fria no sentido ideológico porque embora a Rússia tenha passado por um capitalismo de Estado que contrapôs o neo-liberalismo norte-americano, hoje os países adotam as mesmas regras no jogo e seguem suas tendências políticas de acordo com as cartas dos mercados.
A análise do fato apresentando pelo governo norte-americano pode passar pela conspiração, pela revanche e ainda pode incluir um novo personagem na história.
A interpretação da conspiração sugere a hipótese de que grupos conservadores internos do governo norte-americano forjaram as acusações com base nas recentes aproximações entre os ambos os governos, diagnosticadas como de desinteresse para os yankes. Essa avaliação conspiratória é digna das mais belas ficções hollywoodianas como Jack Bauer, mas como já dizia Guevara, executado justamente por uma dessas conspirações: “não se pode confiar no imperialismo, nem um tanto assim”
A tese da revanche sustenta uma versão mais objetiva para os fatos, os espiões são verídicos e demonstram a inimizade do governo russo com o norte-americano. Ao vislumbrar informações de Estado, os russos reconhecem espontaneamente os Estados Unidos como inimigo, e escondem um interesse maior pautado em questões estratégicas e tecnológicas.
Dentre essas duas hipóteses, um misterioso personagem aparece no lugar e na hora errada; e quase que propositalmente vira alvo da nostalgia da Guerra Fria. A Ucrânia, ex-república soviete, propôs um novo acordo sobre o gás para os Russos. Coincidentemente a secretaria de Estado norte-americana, Hillary Clinton em visita a Kiev, abriu as portas da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que na Guerra Fria era o contraponto do Pacto de Varsóvia, para a Ucrânia.
A Ucrânia em 2006 protagonizou uma grande tensão com a Rússia devido aos gasodutos. Como principal rota do gás russo para a Europa, ou seja, principal distribuidora dessa energia para o continente, reivindicou o reajuste sobre o preço do produto exercido pela Rússia. Como resultado houve um corte do fornecimento de gás para União Européia e uma eminência de guerra entre os dois países. Acordados e próximos, 2010 chega ao meio com um novo acordo proposto pelo presidente ucraniano, Yanukovich, pautando a ampliação dos gasodutos em território ucraniano, medida considerada lucrativa pelos governos e conformidade com a política de Moscou.
Na outra frente, a secretaria de Estado norte-americana em visita oficial a Kiev declara apoio a entrada da Ucrânia na OTAN, afirmando a soberania e independência do país e declarando que como tal o país deve fazer alianças com quem se sentir de direito.
Os interesses das partes envolvidas são óbvios. Para os russos um acordo com a Ucrânia ascenderia seu ego como potência local e desembocaria na nova oportunidade de negócios energéticos com ampliação da distribuição e abastecimento de gás para a União Européia. Para os EUA uma aliança com a Ucrânia reafirmaria o imperialismo americano em um recado muito claro aos seus antigos desafetos, “estamos aqui!”. Já a Ucrânia nesse amor reprimido entre as duas nações visa tirar um pouquinho daqui, outro tantinho de lá, com o desaviso de que com marido e mulher, não se mete a colher.
O fato que esse flerte entre Ucrânia e Rússia com a ciumenta manifestação de interesse e doses de insinuações dos Estados Unidos, somadas aos recentes acontecimentos de espionagem entre os governos, não revela apenas os amores platônicos entre dois rivais, mas a obsessão compulsiva entre os países motivados pelos interesses econômicos de competirem entre si. Se por um lado uma oposição ao imperialismo sempre traz a esperança da primavera, o outono lembra que a disputa deriva do poder e da reprodução dos métodos atuais. Enquanto a saia justa desse inverno apresenta-se como resquícios de amores passados, o mundo espera com atenção a chegada do verão; com novos romances capazes de derreter as lembranças perigosas entre esses dois gigantes.