O gênero dos generosos
27/07/2010 Deixe um comentário
No ano de 1968 espalharam-se pelo mundo diversas primaveras, regadas pelo desejo de liberdade, polinizadas nos espíritos livres e enraizadas no coração da juventude das quais se nutriam. Dentre os jardins uma das flores que nascera fora chamada de Revolução Sexual. Em linhas gerais a Revolução Sexual era uma forma de libertação da tradição familiar e do fundamentalismo religioso, os dois braços da moral puritana baseada, no chamado “bom costume” da época. Da revolução dos sexos criaram-se as modas, do biquíni ao top less, claramente em ruptura aos valores tradicionais, uma tendência ao exibicionismo dos corpos em detrimento as vestimentas, um dualismo entre a liberdade de expressão e tradição patriarcal do Estado.
A mesma França onde se iniciou os movimentos de maio de 1968, é testemunha da aprovação de uma lei, concebida pela assembléia legislativa e autenticada pelo presidente Nicolai Sarkozy, de caráter proibitivo de vestimentas e véus islâmicos, conhecidos como burcas ou nikab, pelo gênero feminino em território francês, o que pela explicitação acima, estaria de acordo com as tendências desenvolvidas desde a Revolução Sexual, o despir dos corpos[i]. Entretanto percebe-se uma diferença essencial dos movimentos de 68 e da lei validada nesse último mês, o que era uma disputa por liberdade entre segmentos sociais e valores patriarcais, ou seja, membros da sociedade contra Estado; inverteu-se no papel dos protagonistas, uma vez que a lei é de jurisdição dos poderes parlamentares.
Essa inversão de papéis, no entanto, envolve uma grande polêmica entre sociedade e governo e deve ser analisada por diversos fatores da argumentação de ambas as partes ao contexto político histórico inserido.
A proibição das burcas é defendida pela França como uma maneira de consolidar os princípios nacionais estabelecidos pela burguesia na Revolução Francesa de 1789, cantado no tema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”; a vestimenta islâmica fere com a igualdade entre gêneros e liberdade das mulheres segundo consta a argumentação. A burca de fato é um atentado contra a identidade da mulher, representa um patriarcado reacionário e fundamentalista das religiões, rebaixa as mulheres em seu papel transformador de cidadã e impõe uma condição insustentável e intolerável, uma vez que representa a submissão de um gênero a outro, o que viola em todos os casos os direitos humanos.
Do outro lado, o conteúdo da lei e sua execução são contrapostos aos pressupostos de liberdade de expressão e liberdade religiosa, também direitos humanos com igual legitimidade, propriedade e importância que a questão de igualdade entre gêneros. A vestimenta como forma de expressão e estado de espírito deve ser de escolha individual e não deve o Estado colocar-se de maneira impositiva nas opções do indivíduo uma vez que a Indústria Cultural, Indústria da Moda e a “Ditadura da Beleza”[ii] já fazem esse vilão. A religião é outra escolha intrinsecamente ligada a uma questão regional e cultural que deriva da fé ou não do indivíduo. Assim como é essencial que o Estado seja laico, não é interessante que o mesmo interfira na crença das pessoas, desde que essa de forma manifesta não viole leis estabelecidas e consentidas pelo bom senso, legitimada nos direitos humanos.
A defesa desse ponto de vista não é a favor das burcas, mas do direito que cada pessoa tem de se manifestar e expressar-se da maneira que lhe convir. A questão do aborto faz um paralelo interessante com essa posição, veja bem, se defender o direito ao aborto não significa praticar um aborto e sim a possibilidade de cada mulher escolher se quer ou não fazer um aborto, aqui à situação expressa é a mesma, defender as burcas não significa ser positivo a sua utilização, mas ao direito de cada mulher querer ou não vesti-las por mais contraditória que seja seu uso. Portanto a burca deveria ser combatida por outros meios, a informação e educação, e nunca por uma imposição do Estado, o regulador da propriedade e do patriarcado.
Outra contradição aparente é a perspectiva do governo; se por um lado a origem do governo se estabelece pelo consentimento de corpo político à submissão a leis que regulem a liberdade dos povos e seja sua finalidade tão somente o bem público, sua manutenção e a defesa dos interesses dos representados, nesse caso a igualdade de gêneros, é notório que a fundação do governo também é estabelecida pela preservação da propriedade e conseqüência irrefutável do sistema patriarcal. Como um regime onde o patriarcado é mascarado se preocupará com a igualdade de gêneros?
O estado francês não está interessado na igualdade de gêneros. Não é pauta política da comunidade européia a diferença de tratamento e relações entre homens e mulheres, mas sim a diferença políticas e econômicas entre europeus e não europeus. O real motivo para a proposta, aprovação e execução da “lei das burcas” é a restrição a imigrantes ao território europeu e o controle étnico das regiões. A questão feminista aqui é uma marionete dos interesses do Estado.
A imigração, principalmente de árabes, para a União Européia (UE) a muito tende a causar tensões geopolíticas; como não se bastasse o seqüestro, os saques e as barbáries que os europeus executaram no processo de colonização, a vinda de imigrantes, fartos da miséria e pobreza resultadas da política (neo) colonial e imperialista da globalização, é tratada com racismo e xenofobismo por parte da comunidade européia.
Ao mesmo tempo que a Europa acusa os imigrantes de roubarem os empregos europeus, aumentarem a violência urbana e baixarem os índices de desenvolvimento humano de seus países (IDH); não percebem ou omitem que a crise do capitalismo proveniente desse darwinismo social[iii], desse modo predador de organização econômica, foi amenizada justamente pela mão-de-obra barata desses povos não europeus e pela massa consumidora que esses representam. Os imigrantes, além de vítimas do preconceito étnico, são bodes expiatórios do Estado que transferem-lhes a responsabilidade de incapacidade de gestão política, econômica e social à migração desses povos.
Somados a esses fatores apresentam-se o medo traumático de 11 de setembro, onde uma milícia islâmica a ordem do Talibã de Osama Bin Laden promoveu um ataque ao World Trade Center (WCT) em Nova Iorque. Desde então, os islâmicos são personificados como terroristas, intolerantes e bárbaros. Esquecem-se dos últimos vinte um séculos, as cruzadas e as missões, os navegadores e os piratas, os bandeirantes, os colonos e aristocratas, os escravocatas e os traficantes, os reis e as rainhas, os tiranos e déspotas, os fascistas, os nazistas e os stalinistas, imperialistas e neo-liberais, corruptos e ditadores, quem eram mesmo os terroristas?
Da Revolução Sexual a proibição das burcas o que menos se discutiu foi o interesse das mulheres e a igualdade de gêneros; o controle ao transito humano além de racista e xenófobo é uma violação no direito natural de ir e vir. A política é instrumento de manifestação social expressa e exclusiva dos interesses comuns; o Estado serve a si próprio, da tirania particular a propriedade patriarcal. Portanto, ao mesmo tempo em que estamos nus perante as arbitrariedades das nações, escondemos os rostos ao confrontá-lo e pintamos de preto as ideologias, devemos vestir burcas em luto (e luta) pela política. [iv]
[i] Tanto a burca como a exposição sexual dos corpos atentam contra a liberdade da mulher. Nos dois casos as mulheres são colocadas apenas como objetos, e instrumentos de conservação do patriarcado. Tanto o liberalismo da Revolução Sexual como o fundamentalismo religioso das burcas ferem a dignidade humana.
[ii] Termo em referência aos padrões de beleza estabelecido pela comunicação social
[iii] Termo em referência as leis de seleção natural do cientista inglês Charles Darwin inseridos em um contexto social, a lei do mais forte sobre as relações humanas
[iv] Burcas em um sistema metafórico, representação da militância ativista nas ruas.
