Como viver junto

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“Paradoxo erótico: os corpos estão agarrados, entre- tanto não fazem amor, quanto mais fechada a idioritmia mais o eros estava sendo banido … em direção a uma erotização da distância”. É na citação do filósofo francês Roland Barthes que começamos a discutir, a questionar, um conceito tão simples, tão clichê, mas paradoxalmente complexo e aparentemente impossível, “Como viver juntos?”.

Sim, como podemos viver juntos, uma pergunta apenas, mas sem respostas, pelo menos plausíveis as relações humanas. A existência humana precede a necessidade intrínseca de nossa natureza de interagir com o próximo, revela a dependência que temos de relacionarmos, de comunicarmos, de conviver em grupo. Essa dependência que nos organiza socialmente é a corrente que nos prende em nos mesmos, é a coleira que limita nosso espaço. Uma vez inserido em uma sociedade a liberdade do indivíduo, a liberdade humana, é sempre parcial e instável. Parcial porque termina onde começa a liberdade do outro, e por essa fronteira nos igualamos como seres. Instável porque o equilíbrio desse estado é instantâneo, se rompe na medida em que somos capazes de pensar, possuímos a qualidade do raciocínio, o dom da didática, e por essa capacidade nos diferimos como seres, construímos nossa individualidade, formamos nossa opinião, protagonizamos nossos sonhos e pensamentos. É justamente nesse momento em que surgem as diferenças, as contradições, mostramos nossa natureza em si, sem máscaras, expomos nossa intolerância e percebemos como é grande nossa ignorância.

O conceito de como viver juntos para Barthes não apresenta uma fusão em si em que nós homens deixaríamos nossas diferenças e concepções de lado para formarmos uma ideologia única, uniforme, homogênea e linear, que nos uniria a fim de melhorar as condições e as relações do homem com seu semelhante, mas sim uma idéia de distância. Viver junto, no caso não é uma relação espacial, ou mesmo sócio – política, não significa compartilhar lugares, opiniões e sentimentos, mas sim aceitar e respeitar o próximo. Essa é a idéia de distância que colocamos, a aceitação do próximo e de suas concepções não a união ou submissão social de nossas crenças. Viver junto assim passa a ser a negociação e administração da distância em si. Viver junto torna-se a idioritmia exposta, como integrar o ritmo pessoal do indivíduo ao ritmo social e suas discrepâncias que por muito dificultam a convivência pessoal.

É justamente nos conceitos de Barthes em seu ensaio “Como viver juntos” que a 27ª Bienal de Arte de São Paulo, o maior evento da arte contemporânea na América do Sul que se encontra nos verdes bosques do Ibirapuera, justifica seu fundamento, personificando-se como suporte de discussão.

Esse ano, diferentemente dos outros, a Fundação Bienal, seguindo exemplo alemão, promoveu um concurso para selecionar o curador da exposição. A escolhida desse ano, com o projeto “Como viver junto”, foi Lisette Lagnado, pesquisadora e crítica de arte, mestre em comunicação e semiótica e filosofia. Lagnado em seu projeto “Como viver junto”, inspirou-se em duas vertentes, uma filosófica buscando a concepção de Barthes já exposta aqui, intitulada de programa para a vida e outra construtiva, baseada no trabalho do artista plástico contemporâneo brasileiro Hélio Oiticica, nomeada então de programa ambiental.

Se o tema “Como viver junto” clama por um tratamento igualitário a todos sem discriminação e preconceitos, ele também contradiz a idéia geopolítica de fronteiras, expondo crítica as representações nacionais. Vale lembrar que a Bienal é um evento mundial que ocorre em diversos países, mas tem como símbolo maior a cidade de Veneza onde foi fundado o evento. A Bienal de Veneza, além do charme, elegância e status, têm como característica maior a exposição das obras, meio aos jardins, segmentadas por nacionalidade. Desse modo há uma praça somente com obras brasileiras, outras com obras francesas e assim por diante. Essa idéia de nacionalismo, de identidade vem a destruir a universalidade da arte, das obras. A arte, por assim dizer tem um caráter cosmopolita, não se limita a uma fronteira, não se registra em um país, nem menos pertence ao autor, quando a obra é exposta ela perde todas as suas pendências mundanas para ser universal, para ser tudo, para ser de todos.

A relação de Hélio Oiticica com essa Bienal pode ser explicada pela citação do próprio artista: “não estou querendo criar obras”. Oiticica foi junto com Lygia Clark e Cildo Meirelles, o grande nome da arte conceitual brasileira, tanto pela aproximação via interatividade da obra com o público como pelo tratamento espacial e conceitual que ela mantinha com o ambiente. Autor das “Cosmococas” ou como chamou de “quase-cinemas”, Oiticica visava em suas obras não só a utilização diversificada da exposição ambiental, mas uma interatividade com o próximo, considerava a arte uma relação entre pessoas e não entre olhares. Desse modo suas obras não eram em si obras no sentido clássico, intocáveis, inalcançáveis, mas sim dispositivos para o próximo participar. A forma conceitual como Hélio Oiticica encara seu trabalho é uma das chaves para entender melhor não só a Bienal em si, mas também perceber o que é e como se manifesta a arte contemporânea e principalmente percebermos a forma espacial em que nos agrupamos e nos relacionamos. Quando falamos de espaços e fronteiras abordamos o assunto por sua complexidade, as fronteiras não são somente de ordem geopolítica, como a questão do “Acre”, mas também as fronteiras e barreiras que nos impomos cotidianamente através de dogmas, obrigações e imposições de cunho moral e social.

O “Acre” citado acima pode ser considerado a metáfora de como viver junto.

O Acre é o Estado brasileiro com menos destaque no cenário nacional. Adquirido junto a Bolívia, localizando-se na região da floresta amazônica, é um estado predominantemente habitado por etnias indígenas e com um grau alto de subdesenvolvimento. A metáfora de Acre encontra-se na relação de divisa e fronteira com a Bolívia, praticamente inexistente ou desconsiderada por habitantes de ambos os lados, no questionamento de identidade nacional e principalmente nas comunidades ribeirinhas que conseguem desenvolver-se de maneira auto – sustentável mantendo um pathos de distância com o desenvolvimento urbano e social em si. A questão do Acre é uma forma alternativa de desenvolvimento sustentável que não agrida a convivência mútua, entre povos, raças, etnias e o desenvolvimento sócio – político – econômico em si.

Discutida a questão filosófica e conceitual por de trás da Bienal cabe a nós vivenciarmos a arte nas obras nela expostas. O destaque fica para o terceiro andar onde deparamos-nos com as assinaturas de Marcel Broodthaers discutindo o valor artístico das assinaturas na obra; com Marjetica Potrc e seu trabalho referente a questão do Acre, confrontando o desenvolvimento urbano com as crises sociais, como a pobreza e a ecologia refletem nos conflitos geopolíticos; Gordon Matta Clark que discute a relação espaço cidade – vida humana em seu muro de lixo, construído com sucatas e matérias encontrados no lixo, sensibilizando-se com a causa dos sem-tetos, e seus “walls papers”; a Long Mach Project, nome em referencia a marcha de Mao Tse Tung, que critica a representação política no contexto internacional da arte e cultura chinesa; e finalmente os polêmicos dinamarqueses do Superflex com sua obra Guaraná Power, censurados pela fundação Bienal por proporem exporem comerciais e produtos que agrediam os interesses econômicos de alguns membros da diretoria da fundação ligados à empresas concorrentes. Ainda no terceiro andar vale citar o material fotográfico de Peiter Hugo na representação da África e o mural da instalação “Rio Amazonas” dignas de Basquiat, de Jarbas Lopes e Roosivelt Pinheiro.

Já no andar abaixo, logo nos encaramos com “Hunt for the unabomber” de Ola Pehrson retratando a então “sociedade do espetáculo” denominada por Guy Debord; mas os grandes destaques do andar vão mesmo para o Atelier Bow-Bow com seu “Monkey Way”, onde a obra ultrapassa os limites físicos do prédio da Bienal e convida o público a um passeio sobre as árvores do Ibirapuera, aqui percebemos claramente a metodologia de Hélio Oiticica e suas representações espaciais e interativas; para o artista brasileiro Hélio Melo que expõe monotipos a base de seringueira formando uma imensa árvore pelo corredor do segundo andar, refletindo sobre o crescimento urbano em detrimento a floresta; e para Antoni Miralda com “Sabores y Lenguas” , fazendo a conexão entre arte, culinária e cultura.

O primeiro, mas no meu caso ultimo andar é o que concentra maior público, talvez justamente por ser a entrada, e é o que desperta maior deslumbramento deste. Merecem destaques aqui, Eloísa Cartoneira e seu trabalho social no auxílio de catadores de papelão visando à fundação de uma editora que crie condições dignas de vida pra essas pessoas; o gigante balão transparente “On Air” de Tomas Sacarena, que propõe a eliminação das barreiras geopolíticas visando soluções concebíveis e alternativas para um crescimento populacional sustentável; Jane Alexander com seu “Security”, onde em uma jaula, protegida por cercas elétricas e rodeadas de luvas discute a relação de Apartheid e de discriminação e segregação entre raças; “Cidade de açúcar” aclamada pelo público, obra do artista africano Meschac Gaba que esse ano foi um dos artistas que passaram alguns meses de intercâmbio no Brasil para através do convívio cotidiano de nossa cultura construir sua obra; e finalmente a instalação mais chocante e realista da exposição, de Thomas Hirschhorn, onde o artista em um agrupado de estantes com livros de Sartre, Foucault e Nietzsche, anexa materiais de construção, restos de manequins humanos e fotos de pessoas mutiladas e mortas. Essa obra impõe o verdadeiro espírito do questionamento como viver juntos, faz um mapa claro de nossa ignorância, intolerância e incapacidade de nos relacionarmos com o próximo. Como nós homens tão racionais, tão superiores, tão desenvolvidos intelectualmente somos capazes de tais atrocidades com nossa própria raça, nosso próprio semelhante, nosso próprio ser. Nossa cultura é a guerra, nosso saber é o crime, nossa humanidade é a culpa. Como viver juntos? Pergunto a você também e me despeço citando a frase estampada nas paredes da instalação de Hirschhorn: “Domínio, diálogos, força de lei. A vontade do saber, a questão social. O crime, o sacrifício. A procura da felicidade, liberdade e verdade. Direito de morte e poder sobre a vida. Culpabilidade organizada e responsabilidade universal.”.

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