Sob a sombra da sobrancelha

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Em 1914, Monteiro Lobato então crítico de arte, debilitado em sua visão, pela sombra de sua monocelha, longa, comprida, e grossa, foi incapaz de perceber os caminhos que a arte seguia, deixando para trás o conservadorismo acadêmico para explorar novas formas, novas linguagens, novas técnicas. Naquele ano, Monteiro, exímio escritor, contador de estórias, criador de personagens inesquecíveis na infância de muitos, Jeca Tatu, Dona Benta, Emília, O sítio do pica-pau amarelo e tantos outros, cometeu um crime. Assassinou uma artista. Anita Malfatti. Sua arma foi o papel, seus petardos as palavras, seu tiro uma crítica. Desde então, Anita nunca mais se recuperou, nunca mais foi a mesma. A crítica feroz, insensível do “sobrancelha” amputou a glória de Malfatti, uma das primeiras artistas mulheres e modernistas do Brasil, mas, simultaneamente, protagonizou uma manobra radical nos rumos que a arte seguia.

A exposição Manobras Radicais, em destaque no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no centro de São Paulo, nos mostra justamente os caminhos percorridos pela arte pós Anita. A exposição só de artistas mulheres tenta, através da arte moderna e contemporânea, discutir as relações não democráticas da arte brasileira, quebrando os paradigmas e valores tradicionais, teóricos e acadêmicos que na época permearam a crítica de Monteiro.

A primeira obra que se destaca chama-se “A Negra” de Carmela Gross; trata-se de uma escultura, feita de uma estrutura de ferro coniforme coberta por um tule preto. Esteticamente parece uma grande árvore de natal, provavelmente não estaria no centro de sua sala de estar. Daí vem a pergunta: isso é arte? Respondo, retrucando com outra pergunta. E por que não seria? Esse foi o destino da arte, ela, ainda bem, deixou de ser figurativa ao extremo, retratar somente a realidade como a vemos, ou as propagandas de instituições clericais e políticas. Passou a ser movimento de questionamento, de re-significação, do desconhecido, de mistificar um sistema sígnico, simbológico, icônico, indicial, passou a explorar novos suportes, ampliou seus horizontes, suas técnicas, seus conceitos. Começou a discutir, filosofar e, sobretudo fazer o receptor, o público, você e eu, a pensarmos. “A Negra”, de Carmela Gross, retrata a raça fazendo um contraponto aos valores aristocráticos de representação do negro, mas disso eu falo depois, ainda não chegou o momento.

Não sei quantas obras se dispersam pelos andares do prédio, mas em cada uma percebemos não só como foi importante a visão reacionária de Monteiro que desencadeou, como contrapeso, a semana de 22, como também, sentimos o verdadeiro valor feminino, a importância das mulheres, na história do Brasil e de sua arte. Percebemos como temos grandes artistas, embora que algumas desconhecidas e desvalorizadas, seus trabalho revelam a essência de como a arte se apresenta hoje. Entre Anita e Tarsila, as mais famosas, destacam-se também Cristina Salgado ao retratar a criança que há em cada homem em “Homem – Bebê”; Adriana Varejão com suas fissuras, feridas, dignas de Hitchcock na tela “Parede com incisões à la Fontana”; Ana Vitória Mussi e sua enxurrada de filmes fotográficos em “Por um fio”; sua xará Anna Maria Maiolino, e sua fotografia também intitulada de “Por um fio”; a carioca Beatriz Milhazes com suas cores vibrantes e formas sinuosas; Maria Martins na escultura “O impossível” que aborda a relação masculino-feminino e Letícia Parente em sua vídeo-montagem “Marca Registrada”, retratando literalmente na pele a industrialização de nosso país.

Antes que me esqueça, voltemos “A Negra”, não aquela de Carmela Gross que citei no começo do texto. A negra de que falo agora é a prima famosa, de Tarsila do Amaral. Bem, não é “A Negra”, é um estudo, mas nem por isso menos valioso. Tarsila, assim como Anita foi umas das precursoras do movimento modernista no Brasil. Vinda de uma família aristocrática, de posses e fazendas, Tarsila estudou na Europa, onde teve contato com as estéticas modernas. “A Negra” de Tarsila foi pintada nesse período, inspirada na busca pelo exótico, na fuga dos padrões de beleza impostos nas artes pelas madonas e vênus, a obra resgata um ser primitivo do homem, retrata sua ligação com a terra, relembra sua origem. O que Carmela Gross quis questionar em sua representação de “A Negra” é como uma aristocrata poderia retratar os negros, qual seria a visão de negro de Tarsila? Qual sua ligação com a terra? Qual é a sua origem? Como uma herdeira de inúmeras fazendas, lugares onde, em nosso país, por séculos, os negros foram explorados e escravizados, perceberia e conceberia o negro em sua essência? Bom, aristocrata ou não, tanto Tarsila como Carmela deixam os registros de um Brasil desigual e elitista, mas paralelamente diversificado, colorido e democrático, rico em cultura, folclore e opiniões, mesmo que ofuscadas pelas sombras da sobrancelha.

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