Cromos e Bromos

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Com o advento da fotografia, como forma e técnica de representação, as Belas Artes foram atingidas por uma seqüência metamórfica digna de Gregor Samsa, que transformou o modo de ver, de perceber e de se fazer arte.

Se por um lado, a fotografia como representação, desobrigou a pintura da responsabilidade de arquivo histórico e imagético de uma época, de seus costumes e conceitos, o que proporcionou o abandono da figuração perfeccionista como retratação, desenvolvendo novas possibilidades de traços, matizes e abstração, paralelamente ela trilhou um caminho singular que constituía não só na retratação documental do contexto, mas contraditoriamente à exploração do fantástico em plena realidade, esta é a qualidade particular da fotografia.

Uma obra de arte do tempo do academismo das Escolas de Belas Artes representa na pintura, um contexto histórico; hábitos, costumes, epopéias; registram documentalmente uma época, mas de forma alegórica. É a retrato da realidade, mas não a realidade em si. São cores, pinceladas, movimentos, signos do real, mas não o real. A fotografia, ao contrário, congela aquele instante de tempo, o segundo crucial; a realidade como é, sem possibilidades à discussão, mas com muitas possibilidades de interpretação. Entre cromos e bromos a luz do imaginário pode-se despertar.

Roland Barthes em seu ensaio “Câmara Clara” (1984) conceituou o que poderíamos chamar de real e imaginário em duas terminologias especificas: o Studium e o Punctum. Se na primeira, temos um campo onde o observador reconhece, sem dificuldades, uma cultura já vivenciada, consideramos esta uma representação de informações clássicas, de senso-comum em que a emoção é expressa por uma moral já estabelecida e assim identificada como a realidade, a ordem estabelecida como o momento; deduzimos então, no Punctum, o imaginário. O Punctum é o detalhe, o diferencial, o desenho com a luz, texturas, claros, escuros, formas, perspectivas, percepções, um novo olhar; é o que punge da foto e encanta e fere os olhos espectadores.

E de Punctum e Studium bem trabalhados que podemos falar de Boris Kossoy, em destaque na Pinacoteca do Estado, na mostra “Caleidoscópio e a Câmera” que apresenta 100 fotografias distintas em diversas séries, oníricas, surreais e verdadeiras.

Arquiteto de formação, o paulista Kossoy, não faz por menos da fotografia. Se por um lado explora o real e a vida de uma cidade como Nova Iorque, seus movimentos, suas construções, hábitos e cotidianos na série “Nova Iorque”, resgata as verdades muitas vezes despercebidas em cidades como São Paulo, Brasília, Paris em seus “Cartões Anti-Postais”; O artista mostra também, com sutileza, a emoção e a surpresa, o espírito poético de suas imagens em “Viagem pelo Fantástico”, uma série incrível de cenas surpreendentes, divertidas e “punctum-ais” (com a poética licença de Barthes e Guimarães Rosa) com direito até a uma justa homenagem a Escher (Hommage à Escher (2000)).

Se ao lado, “Tarsila Viajante” é o prato principal aos olhares poéticos do público, Kossoy degusta-se como uma sobremesa imperdível ao doce paladar da fantasia; entre cromos e bromos!

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