Fechar os olhos para ver

teatro cego

De todo aparato sensível que a natureza nos proveu, podemos dizer que a visão é o sentido que prevaleceu para o homem contemporâneo. Nos termos da evolução da espécie não sabemos onde essa escolha vai parar, normalmente a natureza é econômica, não tem a nossa mania de acumulação. Com o passar do tempo, ela nos desapega do que não nos serve mais. O homem contemporâneo tateia pouco, é cheio de não me toques. Ouve menos ainda, gosta mais é de falar. Já seu paladar foi contaminado pela indústria e comida de plástico. Gosto que dizem vir do cheiro do ar de suas cidades. Mau usados e maltratados, a visão se destaca na sociedade moderna. Por ela passa praticamente todas as referências sensíveis do nosso dia-a-dia, da alvorada, do que vestimos, do buraco da calçada, do sinal de trânsito, das planilhas, da tela do computador, das notícias e até mesmo no reconhecimento de nós mesmos e do reconhecimento do outro. E é nesse ponto que gostaríamos de tocar. Desde cedo aprendemos a nos localizar no espaço e nos situar no tempo a partir da imagem. Hoje qualquer informação que não venha acompanhada de infográficos, de legendas e índices de cores se tornam chatas. Os telejornais substituem o papel escrito que suja nossas mãos. As revistas vêm com muito mais referências as fotos, ilustrações e publicidades que textos. O livro que gostamos de folhar, riscar e cheirar a tinta seria melhor se adaptado ao cinema. Como a música que nos escolhem, que não podem se limitar aos ouvidos, devem virar videoclipes. A visão, de preferência, deve vir pura, sem se misturar com o resto, ou então aparece como um prêmio à determinada obra que se destacou por algum dos sentidos. O predomínio da imagem, não nos pede licença, arromba a porta de nossa percepção de todos os lados. Somos bombardeados por incontáveis estímulos à visão, nas propagandas, nas notícias, nas cidades, na natureza, nas nossas interações sociais. Como podemos nos reconhecer e reconhecer o outro em nossa sociedade quando somos cegos, quando não podemos ver?

Uma simples experiência da física óptica pode nos inverter a percepção que fazemos de nós mesmos. Quando olhamos diretamente para a luz do sol ou para a folha branca que a reflete, queimando nossas retinas por algum tempo e desviamos, de repente, o foco de nosso olhar para fora dessa luz, não enxergamos nada além de um branco. Na sequência os vultos começam a aparecer desfocados e depois recuperamos a sensação de nossa visão. Será que as luzes de todos os lados que os nossos olhos recebem não acabam por ofuscar o brilho que eles mesmos possuem? Não temos um efeito parecido por sobrecarregar nossa visão? Contrariando Charles Darwin, ao querer ver em demasia não estaríamos enxergando de menos? Não são poucas nossas miopias sociais, a generalização da visão acaba também por banalizar nossa sensibilidade ao outro e à violência que ele sofre. Poucos se chocam ainda com um mendigo na rua ou uma criança passando fome, invisíveis sociais que quando vistos são chacinados, linchados ou queimados vivos para continuar a não serem vistos. As cenas sangrentas de guerra são repetidas inúmeras vezes nos jornais e nos cinemas não nos causam mais uma lágrima, pelo contrário, vibramos com explosões, torturas, justiciamentos. É tudo de “mentirinha”, mas essas imagens aguçam nossa insensibilidade que se interioriza na nossa esfera pessoal e se reproduz com certa frequência em nosso modo de agir. Entramos em um estado que José Saramago descrevia em seu Ensaio sobre a cegueira, só vemos a nós mesmos e ficamos cegos pela imagem de nós mesmos. Em uma sociedade narcísica e individualista, apaixonada não só pela imagem, mas por uma imagem específica que é a sua própria, o diferente não é apenas aquele que não pode ser visto, mas é o único que é capaz de sentir e de reconhecer verdadeiramente o outro. Quem vive no escuro, é quem vê mais.

Dos tantos outros que nos passam despercebidos, em uma perspectiva dessa visão sensível ao outro podemos destacar o belo trabalho na Companhia Caleidoscópio de Teatro Cego na peça Acorda Amor, em cartaz na Virada Inclusiva do SESC São Paulo. O grupo é formado basicamente por pessoas com deficiência visual; suas apresentações são abertas a todo o perfil de público e nos convidam a ficar “cegos” por um pouco mais de uma hora de espetáculo. O teatro é completamente vedado e escuro, entramos com as mãos no ombro e uma equipe nos coloca nos assento, divididos em quatro blocos pelos quais os atores transitam nos dando a impressão de estarmos dentro da cena. Eu nunca vi uma peça com tantos detalhes, passos ruíam atrás de mim, corpos passavam, o cheiro do alho e da cebola do almoço vinha ao nariz, como o gostinho do café. Água respingava na gente frente a barbaridade, gritaria e xingamentos que acompanhavam a cena. Na completa escuridão sabíamos onde estava cada um pela voz, sentíamos a dramaticidade de suas expressões e das cenas que curiosamente não enxergávamos, mas víamos. Uma experiência teatral incrível que nunca tinha vivenciado; um teatro visto pela propulsão dos outros sentidos. Uma vivência que nos coloca no outro, permite nos perceber como outro e nos reconhecermos nele. O convite à cegueira que descobrimos tudo ver, nos leva a considerar a condição do cego em nossa sociedade imagética. Ainda que por poucas horas e sabendo que em breve vamos ver a luz de novo, é interessante tentar perceber pelo menos um pouco o que seria da vida como cegos; teríamos a força de vontade dos atores e músicos para se movimentar tão livremente sobre a escuridão, sabendo onde está tudo, onde está todos, sem tropeçar no outro como fazemos na luz, sabendo que ele esta ali, o reconhecendo? E o público cego que não tem a vocação para atuação e as artes dramáticas. Em um mundo de imagens, como fica o acesso a cultura e as artes? Mais do que questionamentos, o grupo de Teatro Cego nos proporciona práticas fundamentais do reconhecimento: a identificação com o outro e a sua inclusão social que aqui se configura pelo acesso à arte.

Outro ponto que temos que reconhecer é a temática da peça. Acorda Amor é inspirada na música de mesmo nome de Chico Buarque. Uma música que fez na época de repressão da Ditadura Militar. Sua letra passa do pesadelo à realidade, contando a história de uma prisão em que o detido, grita ironicamente para chamarem o ladrão que o defenderia da polícia criminosa que prende, tortura, mata e some. A história adaptada, como podemos imaginar, se passa no período do chumbo, retratando a vida de quatro jovens estudantes que caem na clandestinidade no combate ao regime e são perseguidos pelo Estado. Mais uma vez chegamos ao reconhecimento, mas em outro aspecto. Podemos reconhecer um poder tomado arbitrariamente do povo pela força como legítimo? A resposta a essa pergunta é o reconhecimento do direito de resistência, ancorado na própria tradição liberal. Mais que isso, ao tratar o tema no ano em que se completam 50 anos do golpe militar de 1964, em que saudosistas chamam de “revolução” e tomam as ruas para pedir a sua volta, reconhecemos nosso passado e nossa história que ainda não foram amplamente repassado e contado. Ao contar essa história, reconhecemos as vidas daqueles que se foram nos afogamentos, choques elétricos, paus-de-arara, incinerados em usinas ou jogados no fundo do mar. Reconhecemos também a dor dos parentes, mães e filhos que foram destituídos da presença e não tiveram direito ao corpo, a verdade, e nem a um último adeus aos seus familiares. O Teatro Cego acerta no tema, é muito feliz em nos trazer com grande clareza e nitidez uma visão dos tempos mais sóbrios da história recente do Brasil. Conhecer a história e como nos constituímos pelos seus acontecimentos e compreendemos seus signos é outra etapa intrínseca do reconhecimento, o reconhecimento intersubjetivo de nós mesmos enquanto cidadãos, sociedade e nação; para além disso, se reconhecer no sofrimento do outro é a chave crucial para se reconhecer enquanto gênero humano e, enquanto tal, reconhecer a legitimidade dos direitos universais da pessoa humana.

No âmbito humano poderíamos, por último, frisar um autorreconhecimento, uma descoberta ou reconhecimento pessoal. Há uma pessoalidade em reconhecer o outro que implica sempre estar em relação com o outro e considerá-lo em condição de igualdade, mas a identificação e a empatia para com alguém são, antes de tudo, um se descobrir no outro.  Aqui não me refiro a uma projeção própria no outro, mas descobrir o outro dentro de si. Acorda Amor é também um despertar de nossos sentimentos, é um abrir de olhos para nosso o coração. A peça passa pela relação de jovens que, apesar da conjuntura política, tem seus desejos, sentimentos e amores. É a descoberta de cada um deles de sentimentos diversos de paixão, ódio, raiva, ressentimento, traição, perdão, cumplicidade. É um reconhecimento de si enquanto humano, principalmente pelo reconhecimento do amor, perdido em nossas relações que se caracterizam cada vez mais pela objetificação do outro, consumido e jogado fora. Como a visão, nós também perdemos a sensibilidade do amar, muitas vezes reproduzindo os movimentos do livre mercado, aqui de corpos. De abstrato, o amor se materializa na peça se identificado primeiro em um ideal político que o exila de nossos desejos humanos em vão. Depois, em uma busca perdida de lutas, traições e perdas, o amor cede e vence se reencontrando dentro de nós em algum outro. Talvez esse seja lição máxima do reconhecimento, o amor que descobrimos em nós e temos ao próximo.

Com isso, o Teatro Cego consegue tornar visível nossa sensibilidade intransponível, pelo outro, pela inclusão, pela história, pelo direito, pela humanidade, pelo amor, Acorda amor nos ensina pelo reconhecimento como ver o mundo. Às vezes olhamos sem ver, vemos sem enxergar. O que o grupo nos ensina é que é não vendo que acessamos o visível. Por tudo isso, reconheça: você precisa não ver!

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