Pela última vez, Tarsila

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Pela última vez, Tarsila! Engano, nunca será possível uma última vez, Tarsila tornara-se sinônimo da Arte Brasileira, tal a importância da mineira para o desenvolvimento da identidade nacional tupiniquim, tal as célebres polêmicas envolvidas, tal a autoria da obra brasileira mais valiosa em termos mercadológicos.

Destaque máximo na Pinacoteca do Estado até 16 de março, “Tarsila Viajante” comemora os 80 anos de “Abaporu”, recorde de arrecadação por uma obra nacional em um leilão, revelando a cronologia exata das fases modernistas e do mito Tarsila do Amaral.

A primeira fase de destaque da artista é denominada “Pau-Brasil”. Obras como “São Paulo (Gazo)” (1924); “Carnaval em Madureira” (1924) “Paisagem com touro” (1925); “O mamoeiro” (1925); “A Feira” (1925), revelam o resgate da identidade nacional, da brasilidade, de uma cultura exclusiva daqui, cores caipiras, hábitos locais. Tarsila é a primeira a representar nossas formas com um traço específico. Não à toa, Tarsila e a geração de 22 é considerada o parto da arte brasileira, o rompimento com o academismo para a construção do “nosso”. Aqui, aparece a primeira polêmica, é evidente que Tarsila e companhia foram únicos na retratação do Brasil como percebiam (e não como era, vale lembrar que Tarsila e muitos outros faziam parte da Aristocracia Rural, vigente na época). Mas é inegável que ainda que se propusessem a uma arte gerada no útero do Trópico de Capricórnio, claramente, sua mãe de leite foram as tendências européias, uma vez que, como de costume, todos os artistas brasileiros de destaque, naquela época, passaram temporadas de estudos na Europa onde, aprimoraram técnicas e descobriram tendências modernas. Assim, o modernismo brasileiro não foi a original descoberta de uma cultura nacional, mas sim a adequação da identidade nacional a tendências modernas européias. Essa constatação não diminui a contribuição desse movimento para a formação nacional, se não primávamos pela autoria, certamente, podíamos nos vangloriar de pela primeira vez, relatar nossas formas, matizes e hábitos, como aparentemente pareciam ser.

A segunda fase de Tarsila é o grande marco da artista como autora e da arte brasileira como forma. A fase “Antropofágica”, fecundada através do presente “Abaporu” para Oswald de Andrade, seu marido até então, descarta o que no Pau-Brasil consistia em originalidade e afirma conceitualmente o que propus no parágrafo acima. “A Negra” (1923); “Abaporu” (1928) e “Antropofagia” (1929) formam a tríade da arte de Tarsila, deformação das formas, cores brasileiras, e surrealismo tangente. A antropofagia propunha a “deglutinação” da cultura européia em algo brasileiro, não negava tendências anteriores para formar as nossas, mas com maturidade assumia que toda cultura é valiosa e pode ser transformada a fim de moldar-se a uma identidade própria. Enfim, assumimos nossas influências e alcançávamos o expoente máximo de nossa arte. Nessa fase Tarsila, “surrealista” se assim podemos rotulá-la, não só representou nossas formas, mas também explorou o imaginário e o onírico em telas como “A Lua” (1928) “Sono” (1928); “O Touro (Boi na Floresta)” (1928); O Lago (1928).

Depois do auge antropofágico, há o declínio evidenciado em sua fase social. De novo companheiro, o socialista Osório César, Tarsila influencia-se pela questão política e pelo contexto social invocado pela URSS, onde esteve de passagem. Dessa fase o grande destaque seria a obra “Operários” (1933), a retratação da classe operária, miscigenada e trabalhadora, formando a base da pirâmide social com o desenvolvimento industrial literalmente a todo vapor como plano de fundo. Aqui Tarsila não mostra-se somente influenciada pelas tendências político-sociais do leste europeu, como de forma descarada copia um cartaz russo creditado à V. Kulaguina.

Artista renomada, criativa, original, de traço único e cores singulares; acabava por aqui, arranhar-se, um corte superficial que excluiria e desconsideraria a meu ver, a fase social de seu legado, marcado por: brasilidade, “deglutinação” e pela última vez, Tarsila!

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Seja marginal ! Seja herói !

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Heresia, não! A maioria pode discordar integralmente do que vou dizer, mas o período mais fértil e representativo da arte brasileira foram os anos 70 (e final dos anos 60). Colocar a arte como questão é fundamental para seu desenvolvimento como forma e conteúdo, conceito e adequação a época. Não podemos deixar mencionar a tão cultuada Semana de 22, o marco inicial do surgimento da arte brasileira, a ruptura com o academismo e as escolas de belas artes. Tarsila, Brecheret, Oswald de Andrade; pinceladas, monumentos, poesia. Os modernistas deram o primeiro passo para que a arte se desenvolvesse no Brasil, a semente inicial na terra do sol; o nacionalismo, nossas cores, nossos hábitos, nossa cultura. O rompimento com o academismo foi fundamental para o parto de nossa arte, mas esse que é o período mais sublime da arte brasileira não foi tão original assim! Rompemos com um modelo para seguir outro!

Nada se cria tudo se copia, o jargão pode ser relevado, mas não podemos clamar por uma arte exclusivamente brasileira se seguíamos claramente as tendências européias. De Cubismo a Expressionismo, de Lasar a Anita, nossos mais importantes artistas foram estudar na Europa e não há como negar que voltaram com referências. Isso implica dizer que o Modernismo brasileiro, não foi uma manifestação da arte exclusivamente nacional, mas sim a adequação das novas tendências européias.

Apontar os anos 70 como o período mais fértil da arte brasileira implica observar seu amadurecimento. Não que deixamos de copiar tendências mundiais para sermos exclusivos, longe disso, embora, Lygia Clark e Hélio Oiticica revolucionassem na questão da obra como elemento sagrado. Se Duchamp ironizava a instituição museu, mais além, nossos artistas exploravam a interatividade, incitavam a participação do público, pioneiros da verdadeira integração arte-espectador. Se pudermos exigir pioneirismo, não podemos deixar de perceber também, que ainda assim, a arte como conceito não nasceu dos verdes louros dessa terra.

Comparar arte de 22 com dos anos 70 é uma tarefa complexa, não só no contexto histórico-político, mas também na questão “aesthetic”, filosófica e artística. Muitas são as semelhanças, poucas são as divergências. Assim como 22, artistas, musicistas e literários cada um em sua especialidade reuniram-se para fazer arte, não a do rompimento, não a do nacionalismo, mas tão patriota quanto; juntaram-se para dizer sim a liberdade, sim a livre expressão, driblar a censura. Não apuraram nossas cores. Não retrataram o mulato. Esqueceram nossa natureza. Mas sim, como ninguém, abordaram nossa realidade, daqui, única e exclusiva. Se contemplarmos em 22 uma arte revolucionária, devemos ponderar também o fato de que a maioria da elite intelectual brasileira, representada na figura de Tarsila do Amaral, era aristocrata, nunca desafiara o sistema a qual pertencia. Retrataram a pobreza, sim! Nossos negros, sim! Mas a intenção nunca foi de mudança e sim observação para uma arte nacional, o exótico, que rompesse com o padrão de beleza estético personificado no “Belo”, que despertasse o olhar curioso do europeu.

Arte rebelde, arte corajosa, que pela primeira vez desafiou o regime teve início no outro período, por isso, além de mais madura, considero a produção artística dos anos 70 mais importante e significativa. Não podemos julgar nem desmerecer os artistas anteriores, mas é verdade que o espaço e o tempo refletem profundamente na consciência e na produção desses artistas. A arte passa a ser apenas o reflexo de um tempo, o retrato de um espaço, e naquele tempo a constatação da mudança, a afirmação da nossa realidade, de nossos problemas.

Renegar o Estado! Discutir a Arte! Duas correntes expressas em um mesmo período. As bandeiras de Nelson Leirner (Bandeiras), a fome de Carlos Vergara (Arroz e Feijão), o registro de Letícia Parente (Marca Registrada), Ivens Machado e seu consolo (Consolador), Paulo Herkenhoff e sua papinha (Baby Food) e claro, Cildo Meireles (Inserções em Circuitos Ideológicos) “Quem matou Herzog?”, “Yankes! Go to Home”, são exemplos da arte heróica, marginal. Uma arte que não se calou na censura, voz ativa, desafiou a representação política, pediu por paz, berrou por liberdade, mas vociferou na guerra. Exilados e marginais, mas antes de tudo artistas!

Na outra corrente, a arte como questão, seu conceito, a verdadeira integração arte público, Júlio Plaza e Regina Silveira através da técnica, discutindo a teoria (Técnicas de Papel), os sabores e aromas de Lygia Pape (Roda dos Prazeres), Walterico Calda na ponta dos sapatos (A emoção estética) e o consultório de emoções da arte terapia de Lygia Clark (Consultórios), destaque pela interação máxima do público, da exploração de sentidos e da arte como prática. A desmistificação da arte sagrada, intocável, apreciável. A livre-expressão da arte como objeto da vida, como parte do cotidiano. Arte do homem, a fusão essencial da arte com o espectador, interação ímpar entre o ser e o conceito.

“Anos 70: a arte como questão” destaque no Instituto Tomie Ohtake, ilumina e reconhece um dos períodos mais importantes e significativos da arte brasileira. Arte ativismo! Arte terapia! Seja marginal! Seja herói!