O engenhoso senhor Kaplan

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Em algumas das fases da vida, alguns de nós se perguntarão uma questão primordial de Oscar Wilde: “os ratos vivem pelo queijo e os homens, vivem para quê”? Mais comum é que esse questionamento venha na velhice quando fazemos um balanço retrospectivo da vida, ainda que não possamos ignorar as muitas pessoas que desde cedo se preocupam em deixar a sua marca no mundo, em fazer da sua passagem terrena algo de bom, assinar o seu nome na história da humanidade ou apenas dar um sentido à vida pequena e miserável diante a imensidão do universo. Há quem logo cedo, pelas vivências sociais, atribui esse sentido com a religião e vive feliz até a hora de encontro com o desconhecido além. Outros substituem religião por ideologias e utopias, veem na transformação social e na solidariedade uma das maneiras de sua vida ser útil aos outros e à comunidade. Têm aqueles que acham que acumular fortunas e outras desnecessidades uma boa maneira de passar o tempo da vida, preenchem o buraco de seu sentido vazio com  vidas alheias, consumidas pelo trabalho e pela exploração em geral. A preocupação do hedonista é significá-la agora, gozar o carpem diem de forma egoísta, individualista e inconsequente. O pós-moderno nesse pot-pourri de referências veste a vida com o signo que lhe for mais apropriado para o dia; de acordo com o humor com que se levanta, escolhe o figurino que dará sentido à ela. Os céticos e os pessimistas podem significá-la apenas como a reprodução para manutenção da espécie, as garantias e conservação das condições para o milagre da vida seria o sentido da vida. Já a maneira mais realista, quem sabe, seja daquele que se satisfaz com as coisas simples, poderia o sentido da vida ser cuidar dos filhos, plantar uma árvore, escrever um livro, roubar um sorriso, coisas do tipo. Pois bem, o sentido da vida é tão plural, diverso e vivo quanto a vida em sua experiência, não podemos chegar a conclusão nenhuma aqui porque para essa questão não há resposta filosófica, científica, social ou pessoal que possa dar conta da vivacidade com a que sentimos. A vida está mais na vivência e na percepção do que nos descaminhos da razão que a comparte em segmentos, classificações, e tabelas na tentativa de respondê-la e objetificá-la. Dessa maneira, cabe a cada um que queira, muitas vezes de forma solitária, buscar algum sentido na vida que lhe convenha, lhe agrade ou principalmente lhe convença de sua importância, apenas vivendo.

Nessa busca existencial por uma justificativa sobre a vida, o cineasta Álvaro Brechner talvez não tenha encontrado ainda um sentido para sua própria, mas ao percorrer os caminhos de sua origem, certamente encontrou um sentido especial para a vida de Jacobo Kaplan, um uruguaio de certa idade, e suas aventuras no cinema. Em uma viagem para um festival de cinema na Polônia, nos conta o diretor que foi visitar a aldeia de seu avô – um judeu imigrado para fugir do nazismo – imbuído dos papos e estórias contadas por ele e o desejo de encontrar parte de sua identidade. No entanto, lá nessa aldeia não encontrou nada além de um cenário esvaziado das antigas tradições judaicas, e percebeu que aquele mundo que seu avô vivera e contara aos netos não existia mais. A morte desse mundo era como o fim da própria memória viva que tinha de velho avô, aquele mundo se encerrava para a história levando as lembranças das vidas e os personagens daquele tempo. Daí surgiu o senhor Kaplan – baseado no romance El salmo de Kaplan de Marco Schwartz – um judeu de 76 anos de idade da classe média uruguaia, aborrecido com a vida que a velhice lhe oferece, principalmente depois que foi proibido de dirigir pelos médicos e pela família, da qual se vê deslocado e menosprezado. Um senhor crítico, ranzinza e teimoso que vê as tradições judaicas e a memória do horror do holocausto que deu cabo de seus próprios pais, tornarem-se esquecidas pelas gerações mais recentes. Uma pessoa que quer provar-se a si mesmo como útil e capaz, que ainda quer achar o seu lugar na história e que encontra no acerto de contas com a própria história de seu povo, uma forma de servir a comunidade e significar a sua própria vida, que lhe passava tão comum.

A interdição de que sofria Kaplan era muito mais social do que física. Claro que a idade chega e nos cobra a conta, a visão começa a embaçar, os reflexos ficam mais morosos e o coração, às vezes, nos prega uma peça ou nos deixa na mão. Vemos a vida já pisada e cansada querendo ir embora. Com sua razão as pessoas ficam mais preocupadas com a gente, nossa saúde e bem estar, uma preocupação que pode ser movida pela melhor das intenções e boa vontade, mas que nos faz encarar a perda de nosso próprio protagonismo de outrora. O que dói não é não poder dirigir por causa da vista, é perder a independência e liberdade de ir e vir sem ter que dar satisfação a ninguém; bater o carro e afogar-se mais de uma vez, não é tão ruim quanto os deboches dos amigos e os preconceitos sociais que vê a gente capaz para mais nada; não é a gentileza das pessoas ao querer fazer as coisas por nós ou o carinho da família preocupada com nossas condições físicas que machuca, e sim ter tanta gente do lado cuidando de nós e ninguém para nos escutar. Jacobo tinha sorte, uma neta adolescente que vivia de fone de ouvido, não parecia se atentar para nada ao redor, aparentemente alheia aos problemas familiares em que todo mundo opinava com desconfiança sobre o patriarca, mas a única capaz de ouvi-lo e lhe dar verdadeiramente atenção. Não é por menos que esse papel foi atribuído a ela enquanto neta, o diretor aqui se coloca no filme reproduzindo em certo sentido relação que tinha com seu avô; a neta de Kaplan o ouve, com a mesma atenção que Álvaro ouvia as estórias que foi buscar na Polônia.

A mesma fortuna não tinha Contreras, um policial destituído de sua função porque assumiu os crimes de corrupção cometidos por seu cunhado. Perdeu não apenas o emprego, como o carinho de sua esposa, o contato com seus filhos e, tão importante quanto, a dignidade e respeito por si próprio. Não conseguia assumir para si mesmo a situação em que estava, mantinha as aparências para os outros e a ilusão de que eles iam voltar, mas não se ajudava, mantendo-se imóvel pela vergonha de ter desistido do lhe era mais valioso. Vivendo da mesada de seu cunhado em um cômodo apertado, passava seus dias de camiseta regata e bermuda jogando fliperama nos bares e muquifos de Montevidéu até ser contratado pela família de Kaplan para ser o seu motorista particular.

Desse encontro estava formada a dupla que se tornaria famosa mundialmente por descobrir mais um dos responsáveis por um dos maiores crimes cometidos contra a humanidade, o holocausto. Acometido pelo desejo de entrar para a história e se mostrar ainda membro ativo da comunidade, pelo passado de perseguição que o fez perder seus pais e migrar para o Uruguai, pelas leituras sobre a prisão de Adolf Eichmann na Argentina, por uma matéria no telejornal sobre os nazistas que fugiram para a América Latina e, principalmente, pela história de um misterioso alemão dono de um bar na praia que sua neta frequentava, apelidado de “nazi”, o senhor Kaplan teve certeza da missão de sua vida. Com o parceiro Contreras elaborava um plano mirabolante de espiar, investigar, sequestrar e levar a julgamento em Israel o suposto “nazista da praia”.

Uma loucura, certamente, que acompanhamos com muito bom humor, mesclada com as grandes aventuras, coragem, e senso de justiça típicas das histórias de cavalaria. O filme que não faz questão de esconder as suas fontes e influências, a comédia reproduz clássicos universais do riso e do humor inteligente. Mais do que autocrítico humor judaico de Kaplan, com a companhia de Contreras vemos uma versão uruguaia do fidalgo Dom Quixote de la Mancha e seu fiel escudeiro Sancho Pança. Não apenas, o gordinho malandro e trapalhão e o magrelo severo e teimoso também reafirmam as fórmulas consagradas em O gordo e o magro com algumas risadas. Forçando, poderíamos até ver Monty Phyton no questionamento sobre o sentido da vida (mas só por isso). Alguns mais críticos, provavelmente condenariam essa aventura improvável, apenas pela falta de inovação estética como um humor já pré-fabricado anteriormente, mas é justamente aí, em afirmar esse tipo de humor que está a grande força do filme. Na tentativa desenfreada de sermos engraçados, abandonamos a elegância de um humor irônico, inteligente e contestador, para radicalizá-lo levando os limites da simples piada de que todos podem rir para o âmbito da ofensa moral, do discurso de ódio e das humilhações embasadas pelo riso. Onde está a subversão em um humor que apenas reforça um imaginário social repleto de preconceitos, cristalizando dominações econômicas, políticas e culturais sobre minorias marginalizadas e subalternas na sociedade? Kaplan está do outro lado da piada, de uma maneira que podemos dizer mais iluminista, ele extrai mais risos da postura rabugenta e patética do dia-a-dia, de situações inusitadas e inesperadas, sem deixar de focar em questões críticas da cultura dominante, da nossa sociedade e de nós mesmos. Por trás dos risos há uma ironia sobre as pressões que sofremos para ser deixarmos nossas marcas em vida, os relacionamentos familiares e sociais e suas dificuldades em cada família, o modo como tratamos e esquecemos as pessoas mais velhas, as conspirações que criamos e nossa obsessão por segurança, o medo que temos da morte e a importância de nossas raízes, a importância da reconstituição do passado para nossa existência e do tempo futuro. O humor se torna universal e a graça está em rirmos de nossa própria miséria.

No entanto, Kaplan não retrata apenas nossa sociedade em seus dramas pessoais e coletivos da contemporaneidade, ele traz com extrema sensibilidade a obsessão judaica e o seu sofrimento durante o nazismo, nos mostrando como o humor ainda é capaz de tratar os temas mais pesados e obscuros com respeito, sensibilidade e humanidade. Longe de fazer pouco caso da desgraça pela qual passaram os judeus nos campos de concentração, o filme tem nesse acontecimento histórico um ponto crucial para o desenvolvimento da história. É importante para Kaplan levar, ainda que por métodos duvidosos, a punição aos crimes cometidos durante o genocídio judeu pelo nazismo. Em uma sociedade com mal de Alzheimmer, o esquecimento do que ocorreu pelas gerações mais jovens é acompanhado do esquecimento do que foi a sua própria vida, como se sentiu Álvaro ao visitar a aldeia de seu avô. Ao mesmo tempo em que se esquece a história, nossa sociedade também esquece os senhores e senhoras mais velhos, os seus corpos e as suas memórias são signos ultrapassados para um tempo que tem pressa pela novidade. O passado e a velhice andam lado a lado no abandono, por isso a punição do carrasco se trata de devolver ao povo judeu o minimo da dignidade que foi retirada das suas vítimas e não tiveram nem mesmo o direito de ter as suas histórias ouvidas e conhecidas, dar uma satisfação as inúmeras vozes que se dissiparam nas torturas, nos trabalhos forçados e nas câmaras de gás, sem poder dizer adeus, e, principalmente, de dizer que essas vidas, tal como a sua, não foram em vão, que não foram esquecidas e que continuam presentes para que esse horror nunca mais se repita. A reparação histórica não é apenas uma forma de Kaplan guardar a memória de seus pais e salvar o seu povo de uma nova barbárie produzida pelo esquecimento que faz com que muitos campos de concentração e crimes contra humanidade continuem a acontecer e persistam ignorados no nosso mundo contemporâneo, mas também uma forma de conservar a sua própria identidade, aquilo que ele foi e o que ele é. Ao dar voz a essas pessoas com quem se identifica etnicamente e se solidariza ainda mais pelo abandono, Kaplan preserva as suas próprias lembranças e imaginário inscrevendo-os na história; ao resguardar do esquecimento o passado dessas pessoas, ele estaria a salvar a si próprio do mesmo esquecimento sintomático que a ele se impõe e pelo qual tanto sofre.

Nesse panorama geral, as investigações se seguem. Descobrir um antissemita e tornar-se um herói da comunidade judaica se transforma em mero detalhe para um mundo à sua volta que ignorava e acaba por conhecer. Nele recupera a esperança perdida e redescobre a si mesmo com ser humano. Em sua missão internacional ultrassecreta, Kaplan consegue mais do que provar ou não a sua fantasia, ele consegue um sentido especial para a sua vida e se salva da monotonia e solidão que velhice proporciona, encontrando novas companhias de onde menos esperava. A vida pacata de terceira idade ganha em aventuras e emoção mostrando o quanto ainda pode-se viver, por mais que ela queira ir embora. Na mesma medida em que se torna uma preocupação para com a família, ele acaba por conhecer uma companheira muito parecida com ele com quem pode confiar, contar e mais que isso ser ouvido. Em sua neta parceira está depositada a fé que depositamos aos mais jovens de preservação do passado, a certeza de que a sua memória será guardada. Mais que isso arruma um amigo um pouco esquisito, com uma vida complicada, que é modificada completamente quando vai ao seu encontro, desse convívio é transformado definitivamente o destino de Contreras que também encontra a sua razão no mundo. Talvez, nesse filme repleto de pessoalidades, Kaplan possa ter dado até um novo sentido, se não ao cinema, as lembranças de seu diretor e a memória perdida de seu avô. Mais do que sua vida, Kaplan muda um pouquinho a vida de todo mundo que está ao seu lado. Com isso, alcança o seu objetivo: que maneira melhor de mudar o mundo do que transformar a vida dos outros ao nosso redor? Não conheço modo melhor de ser lembrado.

Birdman sob a luz e a sombra do fantasma da Ópera

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Em muitos aspectos da nossa vida cotidiana nos sentimos impotentes frente às situações. Quantas vezes não percebemos uma piora ao nosso redor, nos sentimos afundar em problemas, diluímos nossa subjetividade perante a falta de sentido e perspectivas de uma contemporaneidade cada vez mais vazia. Alguns diriam para procurarmos um analista, devemos estar com depressão. Concordo em termos, até quem nos nega o direito de sofrer hoje em dia vive meio deprimido. Não é preciso tomar antidepressivos ou sentar no divã para encontrar com o enorme buraco em que se encontra nosso ser, por trás dos sorrisos de nossas selfs, das quinquilharias que compramos, dos jantares, festas e viagens que postamos em nossas redes sociais, do carro do ano, do bom emprego, da família feliz, das aparências e ambições, é muito comum encontrarmos relatos de uma infelicidade mórbida. Ai é que está o vazio deixado pelo Real, um enorme vácuo sobre a nossa existência tão hipervalorizada de imagens, pressões e responsabilidades e tão carente de sentido. A fantasia, nesse caso, aparece como um sinal de saúde do nosso Eu; ela permite, ainda que imaginariamente, nos reconstituirmos e nos organizarmos frente à dor e o sofrimento desse insuportável Real. Um teto de vidro é verdade, mas que em sua fragilidade nos estrutura psicologicamente para seguirmos. Quando as coisas dão errado, quantas vezes não queremos explodir o mundo antes de nos comportarmos como avestruzes? Às vezes de fato excedemos os limites da mera vontade e realizamos nossos instintos reprimidos, quebramos a louça, jogamos vasos e atiramos os objetos que tivermos diante dos olhos pela janela; um ataque de raiva que supre a necessidade de destruição do Real. Outras vezes, só queremos ficar quietos, submersos na água como se ela pudesse dissolver nossos problemas e pensamentos, ou então, voar para longe, sentir o vento bater em nossos rostos, nos sentirmos livres verdadeiramente pelo fugir das correntes que aqui nos aprisionam. Esses desejos muitas vezes desafiam a nossa natureza, se pressupõe para além dela e nos dão alívio como uma tentativa desesperada de afirmação do sujeito morto na pós-modernidade. Como não podemos transcender a nossa natureza, projetamos nos superpoderes de heróis nós mesmos, um pedaço de nosso eu ideal, o como gostaríamos de ser. Por isso é que super-heróis fazem tanto sucesso.

Um super-herói de grande sucesso, pelo menos no filme de Alejandro Gonzalez Iñárritu, é Birdman. Como o nome sugere um homem pássaro. Não sabemos que cidade protege ou quais são seus poderes além de voar e o poder da mente, todavia chegamos a conhecer uma coisa muito mais valiosa e preciosa para o super-herói, a sua identidade. Atrás do uniforme azul e da máscara de bico volteado, encontramos Riggan Thompson, uma celebridade de Hollywood marcada por seu personagem. O ator ganhou grande reconhecimento e uma coleção de admiradores nas vestes desse homem-pássaro, entretanto, a fama não foi suficiente para que o vazio existencial que nos consome fosse sanado. O personagem marcou de forma significativa a sua vida de duas maneiras. No âmbito profissional, Riggan não ficou conhecido como o ator que era e sim como Birdman, o seu único personagem de sucesso. Já na esfera pessoal, frustrado por essa impotência profissional e sua decadência posterior, Birdman se tornou um alter ego pelo qual o ator imaginava voar, movimentar as coisas com telecinese e, principalmente, ouvir e conversar. Nessa confusão psicológica é que acompanhamos o desenrolar dos ensaios de uma peça que Riggan iria estrear na Broadway, a última chance de se mostrar como bom ator e recuperar um sucesso dissipado. Apostando todas as fichas na peça, vemos a busca desesperada de uma subjetividade perdida em se recolocar e se afirmar como substância. Riggan queria mostrar que não é Birdman, para isso precisaria se provar como ator e, antes de tudo, como indivíduo; precisaria passar pelo crivo da crítica implacável, já formada pelos pré-conceitos que separa o erudito do blockbuster; precisaria mostrar-se capaz de ser reconhecido como pessoa humana, autônoma, independente que se expressa por sua arte e não como um personagem de ficção que toma a sua personalidade; precisaria ultrapassar o passado de fama que o priva de uma vida presente. Riggan precisava vencer o super-herói a quem deu vida, e, que em sua vida, tornou-se vilão.

Ao querer ser o herói de sua própria vida, Riggan precisaria de um fiel escudeiro, quase todo herói tem um. Há muitos candidatos, o seu agente, preocupado em ganhar dinheiro a partir de seu sucesso; a sua filha com questões edípicas à resolver, que se sente desamparada pelo pai, mas que ao mesmo tempo e do mesmo modo que ele, busca sua afirmação no mundo; o coadjuvante da peça, um ator que vende muito, no auge da fama, com a potência em palco que ele gostaria de ter. Mike Shiner com quem contracena acaba o ofuscando nos ensaios com a máscara de que a arte não imita a vida, a arte é a vida, e, tudo no palco deve ser realidade. Na aparência de que tudo deve ser real, a agressividade e dramaticidade de sua atuação que supostamente seriam verdadeiras, se perdem em sua vida pessoal carente dessa vivacidade. A aparência e a realidade se misturam de tal maneira que a própria vida parece um espetáculo, em suas provocações e arroubos de “personalidade” Shiner está a atuar o tempo inteiro, não consegue mais ser ele mesmo, torna-se apenas uma aparência do que ele poderia ser. Ao confundir-se com seus personagens, a arte deixa de ser um modo de expressão de sua subjetividade para ser o fio condutor de sua própria vida, por isso que ele mantém uma ereção em cena, humilhando e violentando a parceira ao sugerir que façam sexo aos olhos do público, e, em um dos poucos momentos de sinceridade ou um pedido de socorro do Eu, assume o medo de brochar nas investidas da filha de Riggan com quem flerta. Ao confundir-se com sua arte, a realidade lhe parece desinteressante, sua vida é quem imita a sua arte.

Nesse baile de mascaras vemos espelhos de personalidades. Em Shiner, Riggan vê tudo o que gostaria de ser, jovem, talentoso, famoso, seguro de si, e, acima de tudo, reconhecido, ainda que por polemicas e um comportamento duvidoso. Mas, ao contrário, é Shiner que caminha a passos largos para se tornar Riggan, alguém perdido, buscando afirmar a sua subjetividade. O seu comportamento é inseguro, é vacilante de uma vida que não existe e que não se vive. Shiner assume a vida de Riggan ao roubar as suas histórias pessoais que conta como se fossem suas em entrevistas. Já Riggan veste a máscara hiper-realista do companheiro no dia de sua apresentação de estreia. Ao modo hegeliano podemos dizer que ambos reconheceram a partir do espelho do Outro a sua própria mediocridade, mas isso não foi capaz de libertá-los do peso que todos carregam: o mito do herói. Cada vez mais em nossa sociedade sofremos a mediação das imagens, inclusive a que deveríamos ser, é nas aparências que perdemos nossa substância, é no simbólico que perdemos a dimensão da realidade em que vivemos; submersos por propagandas, luzes, flashes somos bombardeados por inúmeros estímulos imagéticos como nunca antes na história da humanidade e acabamos desorientados como sujeitos ativos que agem e transformam o mundo; tornamos-nos imagens circulando em um mercado fictício e virtual. O cinema de Hollywood e o teatro da Broadway são célebres exemplos dessa indústria imagética e da produção de nós mesmos como selos. As imagens ilustram padrões sociais pelo qual orientamos nosso comportamento: a necessidade do corpo perfeito, o modelo de beleza instituído, a narrativa do esportista como um herói nacional, a construção de celebridades instantâneas, consumidas e descartadas como objetos, a ilustração do inimigo da vez: o menino pobre de padrão étnico bem definido, o árabe de barba longa, o partido corrupto, e por aí vai.  Mediados por essas imagens passamos horas na academia em busca de um corpo que não é o nosso; alisamos o cabelo e nos submetemos a cirurgias para não sentirmos vergonha ao andar na rua, usamos de doping e trapaças para nos mantermos no topo e no poder; submetemos nossa dignidade humana à tortura em nome do sucesso; amarramos meninos nos postes, apedrejamos e discriminamos tudo o que é diferente do padrão e, às vezes, até nos atiramos do prédio ou na nossa própria cara como um pedido de socorro à ser transmitido ao vivo, ou aplaudido de pé pelo público que nos assiste.

Nossos atores são apenas objetos se reproduzindo e alimentando a cadeia de consumo desse sistema industrial de espetáculos e dessa maneira não conseguem se libertar enquanto sujeitos autônomos. As máscaras sempre estão dadas pelo espetáculo a ser proporcionado, é o show que dirige as ações do sujeito. Birdman é a máscara do herói ou do mito do herói, a imagem constituída de fama e sucesso que vai muito além de seu personagem, é desse passado que Riggan não se liberta. Shiner já é uma mascara versão 2.0 do próprio Riggan; uma versão atualizada da máscara anterior à espera de um modelo mais novo para substituí-la, ou seja, novamente uma máscara posta pela linha de produção. A ameaça de perder a primeira, o faz a experimentar a segunda como se fosse uma terceira máscara. Há um personagem oculto no filme que é fundamental nessa análise: o fantasma da Ópera. A referência dessa peça de grande sucesso da Broadway é nítida em diversos momentos do filme. Primeiro pela a caracterização geográfica e contextualização do enredo. Cartazes do espetáculo são apresentando na frente do teatro em que Riggan se apresentaria, situando de certa forma o ambiente. Em segundo lugar o Fantasma da Ópera é a produção mais famosa e de maior sucesso da Broadway, um clássico imortal que assombra todas as outras; um paradigma do que Riggan gostaria que fosse a sua obra e a sua carreira. Mas, é só quando Riggan entra apresado e desesperado no teatro no dia de sua estreia é que vislumbramos o fantasma da Ópera como um personagem oculto. A câmera se fecha na porta do teatro mostrando o banner da peça em destaque com o rosto de Riggan; parada, ela acompanha a passagem de tempo do dia para a hora do espetáculo e só é interrompida quando as pessoas saem elogiando o primeiro ato. Nesse meio tempo em que vemos a luz do dia sendo substituída pelas luzes artificiais da noite que iluminam o cartaz, vemos no rosto de Riggan o reflexo da máscara do Fantasma da Ópera, espetáculo apresentado à frente. Durante a peça estrelada por Riggan o fantasma da Ópera entra em cena, incorporado no sacrifício perante a traição da uma mulher amada. A fantasia sai do texto e acaba no hospital em que o ator acorda dias depois com o rosto desfigurado, um nariz novo e um curativo que simulava uma máscara. Em seu desespero, Riggan se tornava compositor Erik Destler, o fantasma da Ópera, uma pessoa que tal como ele vendeu sua alma para o diabo em nome da imortalidade do sucesso. A indústria fez seu papel, a imortalidade do seu gesto veio estampada em todos os jornais e agraciada pela critica e pelo público; o sucesso estava de volta, mas será que de fato ele conseguiu o que queria? Quando Riggan tira a máscara de curativos em frente ao espelho, não se reconhece mais; o que estranha não é seu novo rosto, mas seu ser, ele já não era o mesmo. Birdman sentado ao seu lado, no vaso sanitário, era a confirmação de que o preço pago pelo brilho e pela imortalidade do sucesso era viver eternamente com a sombra do passado. Logo a sua peça e sua suposta inovação estética também se tornaria mero passado. O passado já estava dado porque ele não poderia nunca mais repetir o que fez sem abrir mão de si próprio, mas também porque não hesitaria em ultrapassar esse limite se solicitado; de todo jeito ele viveria como uma sombra de seu passado. Miseravelmente, a subjetividade de Riggan morria de uma vez por todas esmagada pela sua necessidade de sucesso. Agora ele também era um fantasma se esvaindo no ar como um sopro do que foi em vida.