Dez minutos, por favor!

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Instruções para o público: Calvino em suas viagens pelas noites de inverno diria para você relaxar; concentrar-se; afastar-se de qualquer outro pensamento para que o mundo se dissolve no indefinido. Fechar a porta, desligar a televisão, escolher a posição mais cômoda, sentado, deitado, estendido, encolhido; de costas, de lado de bruços. Confesso, seria uma façanha. O computador não permite muitas posições, mas nada que uma confortável poltrona não resolva. Ajeite-se no encosto, sinta-se acolhido e; para com isso, saia do MSN por enquanto; não há regras a única instrução deferida é dedicar aqui, um pouco de seu tempo.

Tempo, é justamente o tempo que Marina Abramovic, em sua primeira individual no Brasil apresentada pela Galeria Brito Cimino, busca desafiar. Nada é capaz de parar o tempo. A relação temporal com homem é dada pela utopia de um dia superá-lo, e é essa evidência, esse falso controle, demagógico e intrínseco às aspirações e inspirações humanas que talvez crie essa maratona que corremos incansavelmente no frenético caos instaurado nas grandes cidades, nas largas avenidas, no comprido cotidiano que estende-se para o dia, avançando pelas horas, nos auferindo tempo para um insuficiente tudo.

O tudo é nada porque queremos o tudo e mais um pouco, lutamos com a ditadura do tempo, que não para, mas mascaramos nosso egoísmo, o tempo é universal, mas queremos o tempo só para nós, quando mais velhos se fica mais rápido passa o tempo, mas quando temos menos tempo mais ambições almejamos, a questão temporal expressa aqui talvez seja diagnosticada pelo capitalismo, pela lei do acumulo. Acumulamos tarefas, acumulamos deveres, acumulamos as santificadas horas extras, que não significa tempo adicional, tudo isso porque aprendemos a querer sempre mais. Nessa simples palavra resume-se o todo. Na adição que está hipótese do acúmulo. Acumular é regra: mais negócios, mais carros, mais amigos, mais viagens, mais comida, mais eu, mais você, mais tudo; minimalistas nem um pouco; abraçamos o mundo superficial, linear e infinito, que não sustenta o mais e mais, de nossa realidade circular e limitada. E se mais é o certo, óbvio, não precisamos ceder, só necessitamos de mais tempo, tempo inexistente, mas fundamental para a vida; não para se viver, mas para sentir-se vivo; porque se dinheiro é vida, tempo é dinheiro!

Socamos, chutamos, batemos de frente, eternamente contra o tempo, brigamos como nunca, perdemos como sempre, o tempo eterno e vida curta. Relógios, cientistas, fotógrafos, nenhuma de nossas armas freia o tempo, a não ser o artista, nas palavras do próprio tempo, traduzidas por Luis Fernando Veríssimo em “O Arteiro e o Tempo”:

– É. Ele pode me fazer parar, como o relojoeiro ou o macaco com o martelo. Pode me virar ao avesso para me examinar como o cientista. Pode me congelar ,como o fotógrafo. Mas só ele pode mais.

– Pode o que?

– Pode desafiar a minha ditadura.

Marina Abramovic é uma dessas artistas, seu desafio não é o conflito com o tempo, não é juntar o passado, presente e futuro, na mesma tela, não é telegrafar um instante de tempo e guardá-lo no consciente coletivo, seu grande feito está nas performances que como ela abraça o “inimigo”; caminha de mãos dadas mostrando que o tempo existe, que há e sobra, que o castigo vem dos homens e do estilo de vida que adotamos; o tempo do seu escritório, o tempo do seu trânsito, o tempo do seu lazer, não é o seu tempo, é desperdiço. O tempo nosso, está em nós mesmos e é isso que a artista e seu Transitory Object for Human Use [Objeto transitório para uso humano] desperta para cada um.

Acupuntura, spa, divãs, nada que um museu não permita, sua arte é delicadamente alternativa sensorial, sem nenhuma imposição visual como Kapoor muito menos impressões táteis terapêuticas de Lygia Clark. A obra interage diretamente com o público, mas não agrega em sensações e sim na reflexão individual, pessoal e temporal de cada um. É uma arte de autoconhecimento, meditativa, e natural. O diálogo do corpo com a natureza. Ametistas, quartzos, pedras, metais. Energia natural com espírito corporal, sem misticismo, sem ritual.

Como cientista de nós mesmos começamos vestindo seu “Parangolé”; o jaleco branco Blending-in Coats e logo passamos pela primeira experiência Time Energize que situa dois pontos no chão sobrepostos ao magnetismo dos hemisférios norte e sul. Dez minutos depois Magnetic Walk nos dá a sensação do peso do mundo pela longa vereda. Doube Edge For No Human Use, explora a agonia de querer subir e machucar-se, apela para nós mesmos e nossas escolha, não há atalhos sem cortes, caminhos sem feridas. Contemplado o futuro é hora despir-se das imposições dogmáticas da sociedade, do estabelecimento do certo e deitar-se na Soul Operation Table, operação de uma hora com cores e néon.

No andar se cima é o momento da observação, do pós-operatório. Sentar, refletir, conhecer-se em Rejuvenetor of the Astral Balance. Deitar-se de pé, deitar-se sentado, deitar-se esticado, sobre sua série de dragões, [Dragon Black, White and Red]. E após um banho de camomila em Reprogramming Levitation Module, esperar a alta da artista, do tempo e de nós em Waiting Room.

Parecendo mais uma clínica do que uma galeria, mais uma meditação do que arte, Marina Abramovic presenteia o público não com metafísica, filosofia e intelectualidade, mas com um trabalho, que teve origem aqui mesmo no Brasil em 1989, e que a casa retorna para provar que o tempo é agora, e nós quem fazemos. Não falei de tempo ao citar as obras, mas é principalmente dele que se trata, pode ficar horas ou minutos em cada estrutura, vai sentir a mesma coisa, nada!

Um nada que está em tudo, porque é na participação, na reflexão terapêutica e na troca em que consistem esses objetos transitórios para uso humanos, não é uma experiência mística ou ritual do espírito é apenas você, a obra só existe em você, e o tempo também. Marina quer seu tempo e lhe dá no trabalho uma experiência, se não boa, relaxante.

Se algo visível para algo invisível, então algo invisível torna-se algo visível”

Quincas Borba

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I want not to want anymore.

Leia Nietzsche! Coloque Nirvana no talo! Se a insatisfação for suficiente, ainda misture boas doses de bebidas, antidepressivos ou qualquer coisa que desperte no caro leitor, a moda da bipolaridade. Pronto, o estado de espírito presente é o prenúncio de um disfarce que revela-se ao relativismo de uma verdade. Agora, antes de cortar as orelhas, assista a performance de Marina Abramovic, “The Onion” (1996), principal destaque da Galeria Brito Cimino, de cara nova, após 10 anos de atividade no circuito brasileiro de arte.

Freud. Lacan… não precisa ser psicanalista para compreender o estado depressivo maquiado que a contemporaneidade impõe aos pós-modernos. A doença do pós-modernismo está diagnosticada no que Sartre chamou de “Náusea”, uma descoberta perplexa de ausência do sentido da vida e a incapacidade de modificar alguma condição que possa transformar essa percepção. Ao citar a “Náusea” como causa psicológica e conseqüência do contemporâneo, deixo que uma individualidade emocional possa a ser expressa no texto, o que não seria interessante, uma vez que, correr-se-ia o risco de perder-se no caminho perigoso do senso comum, de tropeçar no gosto, e beijar o chão com o achismo, que eliminaria a priori o senso critico necessário. Mas, se optarmos ainda pela visão relativista da filosofia, o sentimento é fundamental no trabalho critico: perceber, captar, sentir. O tato, mesmo que seja com o olhar (e isso não é impossível) faz-se necessário para que a bagunça que a semiótica e o contemporâneo, felizmente, fizeram em relação à arte, possam ser observadas, digeridas e engolidas. O fato é: racional ou não, não dá para falar de vida sem expor a emoção.

Marina Abramovic, em breve biografia, já foi Iugoslava, Serva-Montenegrina, e hoje não sei se só Serva ou decididamente Montenegrina. A confusão criada pelas fronteiras da extinta URSS, e as barreiras étnicas que impomos uns aos outros são suporte suficientes para uma arte crítica e política que embora importante e necessária, não limitou a artista a abordar outros temas e explorar a arte em diversas possibilidades através da performance, que surge como uma verdadeira identidade, a registra como cidadã do mundo.

Quem nasce na guerra deve preocupar-se exclusivamente com as batalhas. Entre bombas e metralhadoras, procurar abrigo nem que seja em um dos lados, torna-se a razão e a emoção dos refugiados, a vida é consumida pelo conflito. Essa é a impressão verdadeira e simultaneamente superficial da maioria das pessoas. Nascer na guerra é preocupar-se com o conflito sim, vive-lo, senti-lo, morrê-lo. Mas é também ignorar isso. Nascer na guerra não é ser palestino, haitiano, “iugoslavo”. É ser brasileiro, e não só favelado. Nascer na guerra é nascer no mundo, é ser homem.

O homem nasceu na guerra e os inimigos somos nós mesmo! Abrigamos-nos no preconceito; cores, raças, etnias; Limitamo-nos às definições, nos ismos; Nossas moedas valem mais e valem menos; pobreza e miséria! Nossos deuses brigam em demonstração de fé e poder; Achamo-nos superiores sem sentido, desempenhamos nosso papel, aprendemos a ser útil, a nos prostituir, a nos vender, como máquinas, de corpo e alma, sem parar, mais e mais, dia a dia, abandonamos o viver, para pagar a conta da televisão a cabo, para comprar roupas, sustentar o luxo que nem podemos aproveitar, pois amanhã já teremos que trabalhar de novo. Então percebemos que a resposta para o inexorável esforço físico e mental é apenas resultado de uma implacável busca para a explicação da vida. Somos tão especiais que devemos, ao contrário do resto do universo, ter alguma missão, algum sentido. Somos egoístas, individuais e por isso o pós-moderno é apenas o resultado final de um processo de vida e produção, voltada a si mesmo. O espetáculo está no consumo. Nos planos que devemos ter. Nos valores de homem ideal, fabricado e vendido pelo humanismo. Somos 6 bilhões e todos sem exceção se sentem sozinho. É ai que entra os divãs, as bebidas, Kurt Cobain e muito de Nietzsche.

Felicidade instantânea, transtornos e decepções e sobreviver a si mesmo. Marina Abramovic degusta a vida como ela é. Experimente as lágrimas! Descasque a farsa! E quem sabe: ao vencedor, as cebolas!