Rei, Bispo e Artista

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Pode alguém fazer obras que não sejam de arte?

“Picasso tornou visível o nosso século; Duchamp nos mostrou que todas as artes, sem excluir a dos olhos, nascem e terminam em uma zona invisível. À lucidez do instinto opôs o instinto da lucidez: o invisível não é obscuro nem misterioso, mas transparente…” a observação de Octavio Paz no livro “Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza” é o reduto em que se percebe a importância desse franco-americano no que se refere à história da arte. Se Picasso transformou a arte na manifestação da forma como vida, Duchamp, não menos importante, revolucionou, na constatação da vida como arte. Influência de onze entre dez artistas contemporâneos, Marcel Duchamp, mais que polêmico, é o divisor de águas fundamental para entender o que era arte é o se fazer arte, o antes e o agora.

O conceito tradicional de arte, respaldado no clássico e no romântico, no belo e no sublime, na pintura e na escultura desde o tempo da renascença vem confrontando-se, revezando-se e reinventando-se a cada nova vanguarda. Das formas proporcionais à ‘disformes’ cubistas, passando pela luz iluminada do impressionismo, toda arte moderna sempre foi, senão, a repetição dos mesmos dilemas, razão e sensação, pela transformação no sentido formal da obra. O gesto mudava, a luz variava, a forma misturava, mas sempre presente, a inexorável áurea plástica da obra de arte, o sagrado, o inatingível, arte retiniana, para ser consumida, para ser apreciada. Duchamp aparece da mesmice como o ‘anti-artista’, rompendo com todos os paradigmas do que era arte até então; se até Picasso a arte se reproduzia originalmente entre paredes e museus, molduras e paspatours, olhares e apreciação, representando a superioridade da intelectualidade e do talento humano como legado narcisista de nossa civilização, após Marcel a arte renascia para um mundo que paralelamente se reconstruía no caos do cotidiano, das ‘quase virais’ indústrias e das monstruosas cidades, do erotismo a da moralidade, da guerra certa e do pacifismo errado, da arte como parte da vida e da vida como processo de arte.

Duchamp torna-se o maior artista do século XX pelo simples motivo de não descobrir uma nova forma de representação dos objetos artísticos, instaurados e copiados dos sistemas tradicionais de arte, mas justamente por desconsiderá-los; em outras palavras, por não ter feito nada e com esse nada ter construído tudo. Cada artista, desde os renascentistas, vem instaurando novas técnicas, formas de pintar e matérias, mas sempre respaldados pela forma já consolidada e tradicional; o que muda são os gestos, mas os processos, os dilemas, os objetos são sempre os mesmos, o que Duchamp fez foi subtrair as já saturadas constatações para outra ótica, seu foco não é mais formal, mas processual, a arte vem do conceito, do processo artístico, da vida e desse modo funde-se com o real renovando todo objeto artístico, instaurando uma nova ordem, onde toda arte é vida e tudo na vida pode ser arte.

Com essa nova arte, Duchamp é convidado ilustre no aniversário de 60 anos do MAM (Museu de Arte Moderna) na exposição, inaugurada dia 15 de julho, “Marcel Duchamp: uma obra que não é uma obra de arte” curada pela especialista no artista, Elena Filipovic.

Com contribuições de grandes instituições como o Centre Pompidou (Paris), Indiana University Art Museum; e principalmente do Philadephia Museum of Art, a mostra torna-se a maior apresentação do mestre na América Latina constando de 120 obras fundamentais para entender a arte incompreensível que faz-se nos dias de hoje.

Duchamp foi um artista de mais polêmicas e embates do que propriamente um produtor de obras em grande escala, talvez isso se deva pela obsessão e interesse pelo xadrez que após um tempo negligenciou o artista para as artes plásticas aposentando-o do labor artístico para concentrar-se integralmente na função estratégica e profissional do jogo. Esse fato não diminui em nada a genialidade e a importância de seu trabalho para a estética (filosofia). Duchamp se não apresenta um número exagerado de obras, por pensá-la como estética, como conceito, como anti-arte, possui a coleção mais intrigante do pensar arte.

Contemporâneo dos surrealistas e dos dadaístas, e testemunha dos avanços tecnológicos na arte, a fotografia, Duchamp apropria e dialoga com essas vanguardas de maneira muito aberta em suas obras.

A primeira peça em destaque na sala do MAM é Bicycle Wheel (1913) em português “Roda de Bicicleta”. Primeiro ready-made criado pelo artista, a obra é desenvolvida por um banco de madeira sobreposto por um aro de bicicleta, ambos presos pelo garfo da própria, onde, na medida que o banco encontra-se como base e a roda apresenta-se como elemento superior livre de movimentos. Aqui, muito mais que a relação dicotômica do movimento que a roda poderia realizar contraposta pela estática do banco, o que se discute é a inserção de objetos cotidianos como objetos de arte e assim a vida como arte.

O conceito de ready-made, desenvolvido pelo artista, define-se no rompimento com os suportes específicos de arte, pintura e escultura, transferindo para a arte a plataforma da vida, da rotina, do cotidiano. É o transporte de um elemento da vida diária, a priori, não estabelecido como objeto artístico, como obra de arte, do modo que, não é o labor visual ou formal da obra que está em questão, mas a lucidez do conceito, da escolha e do processo de se pensar a obra. Instalação, happening, performaces; o ready-made pode ser considerado responsável e precursor de todas as tendências formais da arte contemporânea, é o marco inicial que separa o moderno e o pós-moderno, a originalidade e o contemporâneo.

La Mariée mise à nu par sés celibataires, même [A noiva despida por seus celibatários, mesmos] popularmente chamada de “Grande Vidro” (1915 à 1925) aparece para os críticos como a obra mais festejada e fundamental para a compreensão da proposta “duchampiana”. Aqui ele se apropria praticamente de todos os temas e elementos essenciais do seu fazer arte. A obra é descrita por duas grandes lâminas de vidro, uma sobre a outra, onde na parte superior encontra-se a “noiva” em abstração flutuando nas nuvens e abaixo “os celibatários” feitos de fios, tecidos e outros materiais envoltos a uma engrenagem de moinho de café. Não há consenso para o entendimento da obra como matéria lógica, exata, narrativa como até então se escrevia a história da arte, o que importa é o questionamento, a transparência do suporte, sua onipresença (tamanho) e sua fragilidade (material), o aspecto mecânico das imagens (homem e máquina), o tema erótico (noiva e os celibatários), a incorporação do acaso no desenvolvimento do trabalho (iniciado em 1915 e inacabado e abandonado em 1925) e até mesmo a sátira no nome da obra em francês, que pela sonoridade aproxima “Même” (mesmos) com “m’aime” (me ame).

Fontaine (1917) aparece como a obra mais polêmica da coleção de Duchamp. A biografia dessa obra pode ser considerada como exemplo máximo da discussão e enfrentamento que incitou sobre o conceito de tradição na arte. Consolidado e respeitado como artista, o protagonista foi convidado a participar do seleto júri de um importante evento autônomo de arte, o “Salão dos Independentes”. Hiper-ativo, não conformado apenas com a responsabilidade de julgar, ele inscreveu um urinol de banheiro, sobre pseudônimo e assinatura de R. Mutt, para concorrer com milhares de outras obras de autores anônimos. Alegando a produção industrial em série, um objeto comum e sem labor manual, o júri negou veementemente a proposta secreta de Duchamp que discorreu sobre repulsa. Por que aquele objeto não poderia ser arte? O objeto estava assinado (ironia ao valor artístico da obra), possuía forma passível de interpretação (disposta diferentemente do modo típico de instalação da louça em banheiros) e principalmente era fruto de uma escolha, de um processo intelectual do artista de conceituar ou teorizar um objeto como obra de arte.

A iconoclastia de Duchamp não foi revelada; esquecida até sua morte, a fonte despertou-se quando pública, fez-se, “Boíte-en-Valíse” (1935 à 1941), uma caixa colecionavél, pensada como “mala museu” que apresentava réplicas em miniaturas, reproduções, de todas suas obras; constando inclusive, para surpresa de todos, do incompreendido urinol. A partir daí o provocante ready-made tornou-se a obra de arte mais estudada e discutida no fim do século para a definição do que podemos chamar ou não de arte.

Em relação à pintura, Duchamp aparece com menor brilho, mas com a mesma polêmica e o sarcasmo ácido de sempre. Três obras aparentemente se destacam: Nù Descendant L’escadier (1912); Phamacy (1914) e L.H.O.O.Q. (1919)

A primeira representa grandes traços do modernismo, principalmente cubista e futurista retratando uma forma, disforme e abstrata, descendo (movimento pela sobreposição da ação) uma possível escada. A coloração marrom amarelada em uma ação humana, de forma maquinal apelava não para a representação da pintura como forma de registro histórico ou de sensação, mas única e exclusivamente a representação da realidade como fluxo, não como a vemos, sentimos ou percebemos. Sua intenção era de conquistar o movimento, simulacro da vida, para arte, o que na pintura imagem estática era impossível.

Pharmacy por sua vez, já constava da interação da vida à obra. Esse quadro é pintado exatamente sobre o original de um autor anônimo sobreposto por três pontos vermelhos na pintura. A pintura aqui traz não só o elemento vida, mas como a discussão freqüente de sua obra do que é original em arte.

Por último L.H.O.O.Q é uma paródia satírica de Gioconda de Da Vinci, a tela apropria-se de um pôster em que na composição, Duchamp, acrescenta cavanhaque e bigode a figura de Mona Lisa. Novamente discute-se o conceito de original, da reprodução, do erotismo (evidenciado no sarcasmo da sigla em francês que assemelha-se à “Elle A Chaud Au Cul” traduzida para “Ela tem fogo no rabo”), da arte como simulacro da vida e principalmente da santificação da obra de arte criada apenas para ser vista e apreciada e não vivida.

Para arte, estética e vida, respectivamente rei, bispo e artista! Falar de Duchamp torna-se suspeito, por sua importância e admiração, impossível, pela contrariedade instigante e mistérios de suas obras, mas essencial para perceber e compreender a arte como um todo. Se ainda destacam-se Fresh Window (1920)Rotoreliefs (1935) e sua série de fotografias travestida de Madame Rrose Sélavy, termino esse ensaio nas palavras de Filipovic: “sua obra é como se fosse uma grande partida de xadrez: astuta, complexa e inteligente”.